Cairo - Equipes de salvamento egípcias e sauditas só conseguiram resgatar até ontem em torno de 400 sobreviventes do navio que naufragou na madrugada de anteontem no Mar Vermelho, com cerca de 1.400 pessoas a bordo. Com o passar das horas, diminui a esperança de que mais sobreviventes sejam encontrados e aumenta o desespero e a revolta em relação de parentes e amigos.
De acordo com passageiros resgatados, um incêndio e uma explosão antecederam o naufrágio do ferry Al Salam 98, que fazia a travessia entre Duba, na Arábia Saudita, e Safaga, no Egito. Eles relataram ainda que o capitão e os tripulantes foram os primeiros a escapar, de bote.
Dezenas de parentes e amigos de passageiros tentaram ontem romper a barreira policial e invadir o porto de Safaga, em busca de notícias. As esquipes de busca resgataram 195 corpos do Mar Vermelho e cerca de 400 sobreviventes. Mais de 800 passageiros, a maioria deles trabalhadores egípcios retornando da Arábia Saudita, continuam desaparecidos.
Ainda não há precisão em relação ao número de sobreviventes, que varia entre 362 e 389, segundo contagens de diferentes agências de notícias. De acordo com o diretor da Autoridade Portuária egípcia Mahfuz Taha, “pelo menos 378 sobreviventes foram socorridos”.
A falta de notícias levou parentes e amigos ao desespero, após uma noite em claro e horas de espera. Muitos enfrentaram os policiais, atirando pedras e sendo rechaçados com bombas de gás lacrimogêneo. “Ninguém nos diz nada”, disse Shaaban Qott, furioso, após esperar a noite inteira por notícias de seu primo. “Tudo o que quero é saber se ele está vivo ou morto.”
Sobreviventes contaram que um incêndio e uma explosão precederam o naufrágio. “O fogo começou onde os carros estavam estacionados”, disse Ahmed Abdel Wahab, 30, egípcio que trabalha na Arábia Saudita. “Nós pedimos à tripulação para voltar e pedir ajuda, mas eles se recusaram e disseram que tudo estava sob controle.”
Wahab contou à agência Associated Press que os passageiros entraram em pânico e que tripulantes trancaram algumas mulheres em suas cabines. “Depois de um tempo, o navio começou a adernar e eles não conseguiram controlar o incêndio. Foi quando ouvimos uma explosão e, cinco minutos depois, o navio afundou”, contou Wahab, que ficou 20 horas à deriva no Mar Vermelho agarrado a um barril. Houve denúncias também contra o capitão do navio, que teria fugido de bote pouco antes do naufrágio.
De acordo com o sobrevivente egípcio Shahata Ali, os passageiros relataram ao capitão que o navio estava em chamas, mas ele disse para que não se preocupassem. “Nós estávamos de coletes salva-vidas, mas nos disseram que não havia nada de errado e que os tirássemos. Então, o navio começou a afundar e o capitão pegou um bote e foi embora”, disse. “O capitão foi o primeiro a escapar”, confirmou Khaled Hassan, outro sobrevivente.
____________________
Indenização
Cairo - O presidente do Egito, Hosni Mubarak, afirmou ontem que o governo egípcio vai pagar US$ 5.200 às famílias de pessoas que morreram no naufrágio do navio Al Salam Boccaccio 98. Já os sobreviventes devem ganhar cerca de US$ 2.600 cada.
A embarcação que ia do porto de Duba (Arábia Saudita) para Safaga (Egito) afundou anteontem no mar Vermelho, deixando ao menos 185 mortos e cerca de 900 desaparecidos. Autoridades confirmaram que 324 pessoas sobreviveram, mas a agência de notícias Reuters fala em 389.
Ontem pela manhã, Mubarak visitou sobreviventes em um hospital no porto de Hurghada, para onde 140 pessoas foram levadas.