08 de julho de 2026
Bairros

Bairros escondidos

Rafael Tadashi
| Tempo de leitura: 3 min

Nos últimos cinco anos, Bauru teve um crescimento demográfico superior a 12%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De 316.064 habitantes em 2000, passou para 350.492 no ano passado. Este aumento populacional reflete diretamente no surgimento e crescimento de bairros, em sua maioria periféricos. Hoje, Bauru tem tantos bairros, que a maioria dos seus moradores não saberia citar nem a metade deles.

Você já ouviu falar em Parque City, Vila São Judas, Núcleo Habitacional Vanuire, Jardim Manchester, Núcleo Habitacional Quinta da Bela Olinda, Vila Serrão, Parque Granja Cecília, Núcleo Habitacional Leão XIII ou Parque Santa Terezinha? Se já ouviu falar, sabe onde estão localizados? O JC foi a estes bairros para explicar onde ficam e descobrir como vivem seus moradores.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil em Bauru, Álvaro de Brito, o maior problema, além da invisibilidade social das pessoas que vivem nestes bairros, é o fato de estes ‘jardins, parques e vilas’ terem nascido e crescido de maneira desordenada, sem planejamentos quanto à infra-estrutura. “Muitos destes bairros são núcleos habitacionais que, embora tenham água e esgotos tratados, transporte público e energia elétrica, não dispõem de creches, escolas e postos de saúde. Hoje, com o Plano Diretor do município, o crescimento será mais ordenado, mas há alguns anos havia muito pouco planejamento”, explica.

Crianças brincando nas ruas, idosos descansando nas calçadas debaixo da sombra das árvores e vizinhos sentados à frente de casa jogando conversa fora. Este é o dia-a-dia de muitas pessoas que residem nos bairros escondidos de Bauru. Com paisagens ora urbanas, ora rurais, os moradores em geral gostam do local onde vivem, mas reclamam da falta de serviços básicos – como postos de saúde, creches e farmácias –, da ausência de opções de lazer para as crianças – como quadras poliesportivas e praças - e da perspectiva de ascensão social do bairro e, conseqüentemente, deles mesmos.

Parque Santa Terezinha. 16h20. Terça-feira. A estudante Tatiana Cristina de Souza, 14 anos, está sentada em frente à sua casa junto de duas irmãs mais novas. Diante do sol forte, elas se protegem encostadas no muro da casa. Olham a rua e conversam. A reportagem se aproxima e elas sorriem.

“Nasci aqui e morei aqui a vida inteira. Quando falo para as pessoas que moro no Parque Santa Terezinha, a maioria não sabe onde fica. Uma vez falei para a amiga de uma amiga onde morava e ela me perguntou se era em Jaú”, conta Tatiana, dando risada.

Localizado entre o Jardim Manchester, Distrito Industrial II e rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, o bairro tem água e esgoto tratados, transporte público e uma escola de primeira a quarta série. Para quem já passou desta etapa escolar, o único jeito é estudar no Núcleo Habitacional Otávio Rasi ou em outro bairro próximo. “Aqui falta opção para as crianças brincarem. Falta uma praça. Mas também não tem posto de saúde nem farmácia”, explica a estudante. De acordo com ela, há apenas uma mercadinho, uma igreja evangélica e três bares.

A maioria dos bairros “escondidos” é de loteamentos realizados pela Companhia Popular de Habitação de Bauru (Cohab) antes da década de 80. Os loteamentos são analisados e aprovados pela prefeitura e registrados em cartório antes de iniciarem sua implantação. Grande parte dos loteamentos da cidade foi aprovado antes da Lei Federal n.º 6766, de 1979 e da Lei Municipal n.º 2339, de 1982, que estabelecem normas para parcelamento, uso e ocupação do solo no município, de acordo com informações da assessoria da Secretaria de Planejamento de Bauru (Seplan). Assim, cresceram e se desenvolveram sem infra-estrutura básica adequada.