A burocracia, aliada à elevada carga tributária, aos juros altos e à falta de crédito, tem inibido muita gente, inclusive em Bauru, a criar o seu próprio negócio. Quando ocorre a criação de alguma empresa, o processo para sua fundação não atende os parâmetros que exige a lei. A informação é do gerente regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Bauru, Milton Debiasi.
Segundo ele, cerca de 300 pessoas procuram pela instituição todos os meses em busca de uma receita para voltar ao mercado de trabalho criando o próprio emprego. Porém, observa que a maior parte dos voluntários, após concluir os cursos de capacitação, acaba não colocando em prática as orientações recebidas.
Debiasi explica que as responsabilidades que implicam a abertura de uma micro ou pequena empresa, assim como a vontade imediata de mudar de situação, favorecem a opção da maioria pela clandestinidade.
“As pessoas entendem o processo de fundação de uma empresa como muito complexo, por isso acabam desprezando a capacitação e os meios legais. Muita gente também acredita que o Sebrae vai dar uma receita pronta e o problema de cada um será resolvido. Sem falar que a ansiedade de abrir o negócio para tentar melhorar a condição financeira faz com que as pessoas atropelem as etapas”, explica o gerente. O Sebrae em Bauru não possui um levantamento que revela a situação das pessoas após a capacitação. Debiasi diz que, assim que esse tipo de serviço começou a ser prestado na cidade, a instituição tentou fazer um acompanhamento. Conforme ele, a maioria abriu seus negócios sem as formalidades legais ou desistiu do empreendimento, justamente por avaliar que as exigências necessárias à viabilização de uma empresa complicariam demais todo o trâmite.
É o caso da ambulante Eleontina Pereira da Silva, 50 anos. Ela já participou de cursos e projetos do Sebrae, porém não conseguiu pôr em prática o aprendizado que obteve nas capacitações. “Fica difícil se manter no comércio formal pagando aluguel caro e arcando com uma imensidão de impostos. É preciso ter um giro de capital muito bom, o que fica difícil nessas condições”, argumenta.
A mesma situação é vivida por Paulo Brancallião, 40 anos. A elevada carga tributária somada à burocracia tem inviabilizado sua proposta de deixar o mercado informal. Ele trabalha com venda de raspadinha (gelo raspado com suco).
“Vejo como um investimento pagar por um local que ofereça comodidade ao meu consumidor e estabilidade para mim. Entretanto, isso não é possível. Não tenho dinheiro e empréstimos são difíceis. Sem falar que temos que trabalhar 21 dias por mês para pagar os impostos do governo. Se eu pudesse estar no mercado formal, sem dúvida estaria, mas, no momento, custa caro, muito caro”, diz.
Outro fator que agrava o cumprimento das medidas, principalmente em Bauru, ressalta Debiasi, é o baixo nível de escolaridade e a conseqüente má formação empresarial da maioria das pessoas que têm o interesse de abrir o próprio empreendimento. Para esse público, informa o gerente, o Sebrae disponibiliza capacitação diferenciada.
Em Bauru, segundo ele, cursos que oferecem formação em atendimento ao cliente, noções sobre marketing, finanças e preço são os campeões de procura.
Ainda de acordo com Debiasi, o Sebrae constatou através de pesquisa, em todo o Estado de São Paulo, que 86% dos pequenos empresários não sabem calcular ou estruturar o próprio custo. “Muita gente perde o capital de giro por não conhecer o seu custo e não saber formar o seu preço. Quanto mais você vende com um preço que não está adequado à estrutura de custos, mais prejuízo obtém”, alerta.
Pequenos e micro-empresários já instalados no mercado também recorrem às orientações do Sebrae, conforme o gerente. Hoje, informa ele, cerca de cem grupos empresariais das áreas rural, comercial, da indústria e de serviços estão envolvidos com projetos de capacitação oferecidos pelo órgão.
O principal objetivo, diz Debiasi, é descobrir e resolver as deficiências do empreendimento, que em geral resumem-se no mau gerenciamento.