Democracia, mas desde que eu mande.
Quando falamos em democracia, parece até um termo antiquado. Afinal desde 1989 estamos votando para presidente e isso é democracia, não é? Sim, escolher nossos governantes pelo voto direto é um bom exemplo do que é o exercício democrático. Podemos acertar, errar, tentar de novo e tirar do poder e reeleger e por aí vai. A democracia é boa, acredite, mas não é fácil.
É preciso exercitar, assim como aquele velho corpo sedentário que dá os primeiros passos, depois caminha, corre, sente dores terríveis que parecem o fim do mundo, mas depois que entra em forma, ganha saúde, bem estar e longevidade. Assim é com a democracia. Os saudosos dos regimes autoritários, podem dizer: a ditadura é que é bom. É, mas desde que eu esteja com o poder. Na democracia não haveria tantos problemas caso algum insano assumisse o comando. Existe a alternância de quem governa, e o sistema se protege. E nós também! O que vale é a vontade do povo. Mas será que, na prática, é assim?
Os exemplos de descontentamento e ameaças de retaliações dos principais incentivadores da democracia moderna com a vitória de um grupo, eleito democraticamente, na Palestina, gerou uma contradição: a democracia é boa, mas desde que meus aliados estejam no poder. A voz do povo é a voz de Alá, desde que os meus adversários não se elejam.
A mesma reflexão pode servir para os bolivianos: a liberdade de escolha é saudável, mas eleger um índio, cocaleiro e que se recusa a usar o uniforme da Corte, já é demais! E a pedra no sapato venezuelana? A democracia é o melhor dos regimes, desde que o presidente não seja amigo de Fidel. É claro que qualquer um deles pode fazer as mais delirantes besteiras, mas é para isso a democracia existe, e quanto mais sólida, mais sábia.
“O povo é sábio, mas é preciso livrá-lo das más companhias”, podem dizer alguns fieis “escudeiros do bem”. Como explicar, então, o silêncio frente a governantes que cerceiam as liberdades e oprimem suas mulheres e suas gentes e, por serem bons parceiros nos lucros, os olhos vigilantes da liberdade cerram-se. Desse jeito pode ficar difícil contar para nossos filhos o significado de um regime que respeita a vontade de seus cidadãos, porém só vale quando o jogo está a nosso favor.
Aqueles que construíram a democracia como sinônimo de liberdade dos tempos de hoje, livre do temor da Guerra Fria que dividia o mundo entre capitalistas e comunistas, não podem cometer esse erro grotesco. Parece beirar o próprio suicídio. O poder não deve falar mais alto do que a forma mais justa de exercê-lo. Quem nos ensinou isso talvez, ainda, não tenha aprendido. A melhor das democracias que este mundo já viu, jamais poderá se reduzir um tosco significado: você é livre porque está do lado dos meus negócios.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista. Diretor regional da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e membro do Conselho Estadual de Diretores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. lvict@terra.com.br.