09 de julho de 2026
Internacional

Mortos em atos contra charges já são nove

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Cabul - Em novos protestos contra a publicação na Dinamarca de charges sobre o profeta Maomé, quatro pessoas foram mortas ontem por policiais ou militares da Otan que protegiam a base de Maymana, no Norte do Afeganistão. Anteontem, protestos semelhantes em Cabul já haviam provocado outras quatro mortes. O primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, disse em Copenhague que os protestos já provocavam uma “crise global”. Ele voltou a lançar um apelo pela calma, pelo diálogo e pela tolerância mútua.

Com os incidentes de ontem, sobem para nove os mortos no Afeganistão, onde, em Maymana, manifestantes tentaram invadir instalações militares. Houve troca de tiros e lançamentos de granadas e bombas de gás lacrimogêneo. Caças F-16 fizeram vôos rasantes em operação de dissuasão.

A onda de protestos tem como razão a publicação, em setembro, de charges no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten”. Os primeiros atos ocorreram em 26 de janeiro na Arábia Saudita, em que manifestantes pediam o boicote a produtos da Dinamarca. Rasmussen reiterou que a liberdade de imprensa em seu país impede que o governo controle conteúdos veiculados pela mídia e que por isso não pode se desculpar publicamente por eles.

O presidente George W. Bush telefonou ao premiê dinamarquês para exprimir “apoio e solidariedade”. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, os dois governantes concordaram com o fato de a crise precisar ser superada por meio do diálogo, e não pela violência.

Na sexta-feira passada, provavelmente sem contar com o crescimento do movimento, o Departamento de Estado havia se pronunciado em sentido oposto. Solidarizou-se com os muçulmanos que se sentiam ultrajados pelas charges, em iniciativa interpretada como gesto na direção do mundo islâmico, onde a imagem americana está deteriorada.

Ainda ontem, o governo dinamarquês aconselhou seus cidadãos a deixar a Indonésia, onde bandeiras dinamarquesas foram queimadas em três cidades e a embaixada recebeu ameaças. Apelos por moderação têm sido lançados pela mídia árabe. O jornal saudita “Okaz” afirmou que “o uso da violência, que espalha o caos e destrói edifícios, apenas prejudica a imagem do islã”.

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em visita a Dubai, exortou “aqueles que têm autoridade ou influência em diferentes comunidades a iniciar o diálogo que leve a uma aliança de civilizações baseada no respeito mútuo”. A União Européia redigiu uma advertência a 19 países do Oriente Médio, salientando que eles são obrigados pelo Tratado de Viena a proteger instalações diplomáticas.

A reação se deve a atos de vandalismo contra as embaixadas dinamarquesas na Síria e no Líbano. A advertência partiu da ministra austríaca das Relações Exteriores, Ursula Plassnik. No Iraque, foi lançado um apelo pelo assassinato de dinamarqueses e pelo boicote a produtos do país. Atos públicos ocorreram no Iêmen, no Djibuti, em Gaza e no Azerbaijão. No Cairo, estudantes saíram às ruas pelo segundo dia consecutivo. Eram cerca de 10 mil, disseram testemunhas. Não foram registrados atos de vandalismo. Em Amã, na Jordânia, uma demonstração silenciosa reuniu 1.000 diante de uma confederação sindical. O ato mais insólito de ontem ocorreu no Estado de Kano, na Nigéria, onde deputados estaduais queimaram em plenário uma bandeira dinamarquesa e votaram um projeto que cancelou o contrato de compra de 50 ônibus produzidos por aquele país.