08 de julho de 2026
Articulistas

Carnaval e a identidade brasileira


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Estamos a poucos dias do carnaval, uma das expressões mais significativas do espírito lúdico do brasileiro. O carnaval, bem como o futebol, sintetiza a identidade de um povo que apesar da exclusão social busca na festa a melhor forma de reunir forças para continuar lutando, apesar de tudo. Para alguns pode parecer alienação, porém, este espírito alegre traz esperança de um amanhã melhor, e que a dor e a tristeza devem ser esquecidas pelo menos um instante pela música, dança e a emoção.

Como entender um operário que trabalha a semana inteira, muitas vezes sendo oprimido pelo patrão, sofrendo problemas em casa, e que no domingo liga seu rádio ou TV, ou ainda, vai ao estádio torcer pelo seu time. Neste momento de festa ele se iguala a todo torcedor, seja pobre ou rico, grita, torce se emociona por seu time que, aliás, é o mesmo de seu patrão. A diversão pela festa faz que este homem se sinta gente, resgata nele a auto-estima e o alimenta de forças e esperanças para mais uma semana de trabalho.

Então, o espírito alegre do brasileiro tem raízes antropológicas, mostra que em meio à nossa história de exclusão criamos pela festa popular mecanismos compensatórios que diminuem nossas frustrações. A festa é uma forma do homem brasileiro fugir da situação de miséria: sentir-se gente, abastecer-se de esperança pela diversão.

Só há verdadeiramente expressão popular na diversão quando a festa nasce do povo para o povo e nunca da industrialização desta. A industrialização da festa traz a privatização da diversão e afasta o pobre de sua elaboração e participação. Exclui o indivíduo, tornando-o mero espectador, reúne nas mãos de poucos a decisão do que deve ser festejado, criado e oferecido, almejando somente o lucro e empobrecendo o espetáculo. A verdadeira festa popular é aquela que nasce da solidariedade comunitária nos bairros, nas periferias que descem os morros e os núcleos aos grandes centros, que arrastam multidões às praças e celebram a alegria, tratando com humor os problemas, desprazeres e frustrações do cotidiano.

Por isto, estou convencido de que o financiamento do carnaval, bem como de todas as festas populares, deve ser público, na medida em que ofereça com gratuidade, condições para a elaboração de grandes espetáculos, que exaltem a liberdade, a criatividade e as angústias da população, e dê o acesso livre para que todos participem da alegria, da dança da diversão e do lazer. Um governo que reconhece o valor e a importância étnica das manifestações populares investe em políticas de educação e cultura e não mede esforços financeiros em sua manutenção. Alimenta pelo apoio as raízes profundas da tradição, da história e da memória própria da nação, que busca na alegria do carnaval e de todas as suas festas, projetar um misto de protesto, alegria e cordialidade que encantam homens de todas as partes do mundo.

O carnaval e todas as festas populares expressam nossa identidade de ser, e devem ser profundamente respeitadas em suas dimensões democráticas e antropológicas. Não são “perfumarias” sem qualquer função social, mas festas que expressam na rua, no sambódromo, no clube, no estádio o exercício de nossa cidadania e liberdade plena e verdadeira. Por isto, o dever de mantê-las e subsidiá-las cabe à população e ao poder público, pois são manifestações como estas que evidenciam a identidade de uma nação que de diferentes formas celebram um mesmo espírito.

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Teoria do Conhecimento da Universidade do Sagrado Coração. fsantos@usc.br