Islamabad - A principal celebração muçulmana xiita, a Ashura (saiba mais abaixo), foi marcada ontem por incidentes de violência que deixaram ao menos 42 mortos no Afeganistão e no Paquistão. Os dois países têm população majoritariamente sunita.
Na cidade paquistanesa de Hangu, um suposto ataque suicida matou ao menos 29 xiitas durante uma procissão, provocando um tumulto que deixou a cidade em chamas. Segundo as autoridades, houve explosões múltiplas - pelo menos três. Nenhum grupo assumiu a autoria do ataque. Em reação, grupos de xiitas incendiaram lojas e um banco e dispararam tiros para o alto. Cerca de 50 pessoas ficaram feridas. “Algumas pessoas correram para os feridos e os corpos, outras foram para casa pegar suas armas e querosene e começaram a atear fogo às lojas, destruindo tudo”, disse uma testemunha.
Segundo a polícia local, quatro pessoas morreram num tiroteio durante o toque de recolher imposto após o atentado. Em outro incidente, quatro pessoas foram mortas em um ataque de homens armados contra um ônibus. O prefeito de Hangu, Ghani-ur-Rehman, um sunita, disse não acreditar que os incidentes tenham relação com o sectarismo.
Em Herat, no Afeganistão, os confrontos tiveram início quando um grupo de xiitas foi acusado por sunitas de ter rasgado uma bandeira sagrada, disse a polícia. A briga rapidamente se espalhou, envolvendo centenas de pessoas que jogavam granadas e incendiaram carros, cerca de 30 lojas e ao menos uma mesquita. Pelo menos cinco pessoas foram mortas, e 50 ficaram feridas a bala ou por espancamento.
“Alguém jogou uma granada entre a multidão. Onde estava o governo para impedir isso?”, perguntou um xiita. “Não há lei nem governo nesse país.” No mês de Moharram, o período de dez dias que culmina com a Ashura, xiitas fazem grandes procissões marcadas pela autoflagelação. Conflitos sectários são comuns nesse período.
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O que é Ashura
• A Ashura acontece no décimo dia do ano novo muçulmano. A celebração é uma homenagem ao imã Hussein, neto do profeta Maomé, morto durante batalha pela liderança do mundo islâmico no século 7. Mas nem todos os fiéis comemoram a data flagelando suas cabeças e peitos para mostrar seu pesar.
• Esse ritual, reprimido durante a era Saddam, é exclusivo da corrente xiita, que representa menos de 15% da população islâmica mundial e está concentrada na região do Golfo Pérsico. Os muçulmanos sunitas festejam Ashura com música e presentes.
• A divisão surgiu por causa de interpretações distintas para um fato. Sunitas acreditam que o legado do profeta Maomé (os ensinamentos da suna) devem prevalecer, independentemente das rixas dinásticas surgidas após sua morte, em 632.
• Xiitas (do árabe Xia, causa comum, partido) são partidários de Ali, primo de Maomé. Ali foi o quarto e último dos ‘‘califas bem guiados’’, sucessores do profeta encarregados da expansão da doutrina islâmica. Para os xiitas, somente parentes de sangue de Maomé poderiam ser considerados líderes religiosos. Portanto, para eles, Ali é considerado primeiro Imã, guia espiritual dos xiitas, que não usam o termo califa.
• A separação entre as duas correntes surgiu em 661. Após ordenar o assassinato de Ali, o governador da Síria, Muawiya, da dinastia dos Omíadas, autoproclamou-se califa e assumiu o comando da expansão islâmica. Revoltados com a morte violenta daquele que consideravam único descendente legítimo de Maomé, os xiitas depositaram suas esperanças em Hassan, filho de Ali.
• Mas os homens de Muawiya mataram o rapaz quando ele tentava tomar o poder, em 680. Anos mais tarde, os xiitas lutaram novamente contra os Omíadas, desta vez em nome de Hussein, outro filho de Ali. O levante fracassou e Hussein acabou massacrado. O cenário desses conflitos foram as cidades iraquianas de Najaf e Karbala, até hoje lugares santos da corrente xiita.
• Ao contrário do que se pensa, o xiismo não é necessariamente sinônimo de extremismo. Apenas uma minoria de xiitas se autoflagela. O terrorista Ossama Bin Laden e os grupos radicais da Argélia, por exemplo, são sunitas.