Atende pelo nome de Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 42 anos, nascida em Pão de Açúcar (AL), a moça que poderá definir os rumos da eleição deste ano. Senadora pelo Psol, ela vem crescendo nas pesquisas e tirando votos de Lula em redutos onde antes o presidente era intocável. Na última pesquisa divulgada pelo Datafolha, por exemplo, Heloísa Helena aparece com índices que variam entre 6 e 9 por cento. Tem metade dos votos de Garotinho e encarna a indignação daqueles que acreditaram na ética e na moralidade pregada por Lula e o PT durante mais de 20 anos e hoje se sentem enganados. Expulsa do PT porque se negou a votar contra suas convicções, Heloísa Helena fundou um partido que hoje abriga boa parte da chamada esquerda do petismo.
As diferenças entre Heloísa Helena e a direção do PT são de ordem ética e moral. E estes componentes temperarão o discurso que a senadora levará ao eleitorado durante a campanha. Mesmo sabendo que tem pouquíssimas chances de vencer ela pretende concorrer para ajudar a derrotar Lula e levar em frente o projeto de construção do Psol.
Analisando os últimos números do Datafolha é possível compreender o quando Heloísa Helena é importante para o PSDB de José Serra e Geraldo Alkmin. Os tucanos devem estar fazendo novena, pedindo a Deus pela candidatura da senadora. Sabem que ela ajuda a tirar votos de Lula entre os leitores de esquerda e aqueles que rejeitam a idéia de votar em candidatos sociais democratas ou liberais. Mais do que isso, ela terá respaldo moral - coisa que muito adversário do lulismo não possui - para bater em Lula e no PT sem dó nem piedade naquilo que foi mais caro ao presidente e ao partido até a eleição de 2002: ética e honestidade. Se conseguir chegar num patamar entre 10 e 15 por cento dos votos, será um tremendo problema para o presidente.
Ainda não existem favoritos na eleição deste ano. E nunca é demais lembrar que nas eleições de 1989 e 1994 os vitoriosos - Collor e FHC - não largaram como favoritos. Em comum entre os dois: propostas para melhorar a vida das pessoas. Collor prometeu acabar com a corrupção, mas perdeu o poder por causa dela. FHC prometeu acabar com a inflação através do Plano Real e cumpriu a promessa. Está aí o Real fazendo aniversário de 14 anos. Com ajuda dos votos que Heloísa Helena tirará de Lula, quem disputar o segundo turno com o presidente precisará, antes de tudo, oferecer propostas para construir, nunca para destruir. Hoje, boa parte das pesquisas qualitativas aponta que o discurso para enfrentar Lula com eficiência será o da ética com competência. Pode até haver variações, mas a essência é esta.
Por isso é bom o PSDB tomar cuidado, porque já começou mal. A disputa entre o governador e o prefeito de São Paulo, recheada de tricas e futricas, passa para o público a percepção de desunião, de falta de sintonia e, principalmente, de falta de competência para conduzir em paz o processo de seleção do candidato que disputará a presidência. Lula também começou mal. Perdeu o apoio da classe média, dos mais instruídos, dos formadores de opinião - aí não me refiro a jornalistas, mas a líderes - depois do festival de maracutaias que assolou o país. Tem concentrado suas ações de marketing político nas aparições públicas e no discurso para o eleitorado menos instruído. Por enquanto apenas Heloísa Helena começou bem. Embora nem ela mesma seja capaz de prever onde chegará, é certo que seus votos poderão se transformar no empurrãozinho capaz de levar a oposição aos céus e o presidente aos infernos.
O autor, Marcelo S. Tognozzi, é jornalista e consultor político em Brasília