Diariamente, tomadas pela raiva, milhares de pessoas prometem matar alguém. É claro que a maioria só fica na ameaça. Mas quem já superou esta fase inicial e partiu para a execução do crime, em geral se arrepende.
“A cena do crime não sai da minha cabeça. Hoje, eu oro para ele e por mim. Eu tenho certeza de que quem mata está defendendo sua própria vida”, diz Antônio – nome fictício -, que cumpre pena no Instituto Penal Agrícola (IPA). Ele foi condenado a 16 anos por homicídio.
“Matei sem querer. Eu tinha amizade com a vítima, um pedreiro de mão cheia. Eu morava na mesma favela que ele. Tinha amizade com a mulher dele...”, diz. “Eu só me toquei que havia matado dois dias depois do crime. Me refugiei na bebida para não encarar a situação de frente. Hoje, sei que o crime mudou minha vida. Eu perdi a convivência com os meus filhos e me arrependo do que fiz.”
A cena do crime não sai dacabeça de Antônio. “Revivi a cena várias vezes. Minha filha, que na época tinha 9 anos, assistiu a tudo e também ficou traumatizada. Eu não sabia, porém, que ela estava observando a discussão. Para ela, deve ter sido ainda mais difícil.”
Como não foi preso em seguida, Antônio teve tempo de procurar a mulher da vítima para conversar. “Eu não fui preso logo. Os moradores da favela me “presentearam” com a lei do silêncio. Ela não estava revoltada comigo. Ele tinha um comportamento agressivo e costumava maltratá-la.”
O sentimento mais difícil para Antônio foi pensar no filho da vítima. “Ele ficou sem pai. Fiquei muito chateado com isso. Penso no filho dele, que hoje deve estar com 16 para 17 anos. Quando sair, pretendo trabalhar para poder, de alguma maneira, ajudá-los. Na época, o pedreiro reformava uma casa muito antiga para morar com a família.”
Conviver com a morte, especialmente para quem não é o “mocinho”, não é tarefa fácil, explica o detento do IPA. “Quem mata está com medo, mata para não morrer. Mas a morte que mais me impressionou não foi o homicídio que cometi, mas o suicídio de uma companheira de assalto.”
Antônio lembra que a amiga quis fazer um assalto com ele para poder realizar uma festa para o filho. “Ela tinha um filho e ele ia completar 1 ano. Nós fomos fazer um assalto e eu estava fugindo de uma perseguição policial com ela ao meu lado.”
Em alta velocidade, a assaltante se jogou do carro, comenta Antônio. “Ela abriu a porta e se jogou. Ela era viciada em crack e já estava cansada da vida marginal. Acho que decidiu naquela hora e se jogou.”
Ele se emociona ao relembrar que pelo retrovisor viu o asfalto “comendo” o couro cabeludo da moça. “Ela ficou estendida no asfalto e eu fugi. Não morreu na hora. Teve fratura de pescoço e morreu dias após.”
Passados alguns dias da morte, Antônio estava na casa do sogro e disse ter vivido uma situação estranha. “Eu estava dormindo num colchão na cozinha. Não tinha bebido e nem estava sob efeito da droga. Senti que do meu lado havia um animal, grande, com aparência de um cachorro.”
O animal rodeou Antônio, que sofreu querendo gritar por socorro. “Minha voz não saia. Creio que era o demônio que veio me agradecer pela maldade cometida pela minha companheira. Eu me arrepiei de medo e comecei a rezar. Ele foi embora e eu chorei.”
No limite
Antônio diz que quando foi preso já não tinha mais condições de viver fora das grades. “Eu estava na vida do crime. Era assaltante e viciado em maconha. Vivia na gandaia. Já tinha 11 filhos, seis deles com a minha atual mulher.”
Ele conta que fumava maconha fora de casa, em um matagal. “Um dia, eu fumei e chorei muito. Não sabia como sair daquela situação. Minha mãe não acreditou que eu havia matado um homem. Ela se desiludiu com a notícia.”
A mulher de Antônio, por sua vez, soube segurar a barra. “Tudo poderia ter desabado se ela não fosse uma mulher de fibra, com autoridade. Ela assumiu os filhos e os educou. É muito importante que a gente conte com a família. Eu adoro eles. Talvez minha história não fosse essa, se eles tivessem me abandonado.”
Fofoca
Uma fofoca gerou uma desavença entre Antônio e a vítima. “Eu cai na besteira de contar para um amigo meu, que tomou minhas dores. Um dia nós três nos encontramos na favela. A vítima tentou sacar a arma e meu amigo sacou primeiro. Eu também saquei a arma, andava sempre armado. Atirei e ele também. Eu acertei e matei.”
Antônio acredita que se não tivesse sido preso, já estaria morto. “Eu estava envolvido com a marginalidade de uma maneira que se não fosse preso, teriam me matado.”
Antônio, que deve sair do IPA em pouco tempo, sonha escrever dois livros. “Um com as cartas que escrevi na prisão para minha mulher. São mais de duas mil. Creio que vou selecionar umas cem.”
O outro livro é uma autobiografia. “Minha vida dentro e fora do presídio. Com o lucro das vendas quero comprar uma casa para o filho da pessoa que matei.”
Além de escrever, o detento pretende trabalhar como cabeleireiro. “Já sabia cortar cabelo. Na prisão aperfeiçoei e quero fazer disso uma profissão.”