O ser humano tem duas características que o diferenciam dos outros animais: é o único que sabe que vai morrer e que ri. Isso não significa que o riso faça parte da essência humana. Pode-se ser homem sem nunca rir. Deus, que fez o homem a sua semelhança - ou Jesus, que se fez homem - jamais riu. Aliás, os primeiros episódios da história humana não têm nada de engraçado: Caim mata Abel; Deus tenta consertar o mundo distorcido e faz a humanidade perecer no dilúvio; mistura as línguas para castigar a intolerância na construção da Torre de Babel; é obrigado a exterminar Sodoma e Gomorra mergulhadas na devassidão. Na Bíblia o primeiro riso só vai ressoar quando Deus diz a Abrão, com cem anos de idade, e a Sara, noventa anos, que eles devem fazer um filho. Abrão, morrendo de rir, cai sobre seu assento e Sara, hilária, responde a Deus com a certeza da incapacidade absoluta do objeto. Deus, sério e irritado: “Existe alguma coisa impossível para o Senhor?” E em lembrança do que qualificam como fruto do humor divino, a criança que eles terão chamar-se-á Isaac, isto é, “Deus ri”.
Deus cuida de nós com seriedade e devemos tratá-lo com respeito. Para Aristóteles (Ética em Nicômaco) o riso só é aceitável em pequenas doses, para tornar mais agradável a conversação, com brincadeiras finas e que não magoem. O filósofo rompeu completamente com o riso arcaico, zombeteiro, agressivo e triunfante. “Por que certas brincadeiras são uma espécie de injúria”. Os termos de blasfêmia e sacrilégio pesam sobre o divino. Não se zomba de Deus.
Sou defensor do Estado laico e da liberdade de expressão, mas nem por isso poderia concordar com o bispo da Igreja Universal que chutou a imagem da Virgem Maria num programa de televisão. O insulto à fé religiosa de outros obviamente nada tem a ver com a imprensa livre. Aos meios de comunicação de massa é permitido - até se exige! - que se metam na vida alheia. Com uma condição fundamental: a de que assim estejam prestando um serviço legítimo à sociedade. Evidentemente uma série de charges publicada na civilizada Dinamarca expondo Maomé e os mártires do Islã ao ridículo, em nada colabora para o entendimento. Incêndios, depredações e 13 mortos pode ser apenas o começo de uma escalada de violência que ninguém sabe onde vai terminar.
Para os não-cristãos deve ser ridícula a comunhão com o corpo e o sangue de Cristo; os hinduístas têm a vaca como ente sagrado; há seitas protestantes nos Estados Unidos que adoram cobras durante o culto. O Deus-mercado, que quer prevalecer no século 21 empurra-nos a cultura televisiva dos Big Brothers e casos homossexuais entre caubóis. Inspirações para piadas existem para dessacralizar qualquer religião. Um agnóstico como o cineasta Woody Allen, nascido judeu, também tem sua tirada: “Deus não existe, mas nós somos o povo eleito!”
A caricatura desabrocha com a proclamação da liberdade de imprensa na França, em 1789. Interessa à Revolução por incluir um importante processo de marginalização, de exclusão moral, política e social. Ela atribui de maneira muito concreta, pelo desenho, um valor degenerescente à personagem do adversário. A função essencial é o rebaixamento de antigos valores, da monarquia, da nobreza e clero. No século 19 a sátira e a caricatura serviram para aumentar as brechas nos governos autoritários, ajudar nas lutas sociais, políticas e econômicas. No século 20 contribuíram para o recuo das ideologias. Modernamente, troçar da religião é um retrocesso ao século 18 quando, na verdade, o ideal seria então voltar à Grécia antiga onde o riso era expressão de uma alegria simples, fonte de benefícios para o corpo e para o espírito. O grego ria para zombar de si próprio, para acalmar o medo, para manifestar simpatia, para reforçar os vínculos. Esse humor inteligente, diz Georges Minois (História do riso e do escárnio, Ed. Unesp) é o que se espera para o século 21. “Sem humor, como os dez bilhões de pessoas que nos prometem para 2050, desmoronando sob seus dejetos e sufocados pela poluição poderão suportar a vida? Geneticamente modificado ou não, o homem terá necessidade de uma boa dose de humor.” Mas sem criar mais problemas. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )