11 de julho de 2026
Geral

Moroni Torgan: ‘Polícia de SP deve fiscalizar melhor seus depósitos de armas’

Alceu Luís Castilho
| Tempo de leitura: 9 min

O deputado Moroni Torgan (PFL-CE), um delegado grandalhão da Polícia Federal, tornou-se conhecido nacionalmente como relator da CPI do Narcotráfico. Desde o ano passado, preside a CPI do Tráfico de Armas na Câmara dos Deputados. Policiais e bandidos ouvidos em Brasília contam que o PCC e o Comando Vermelho, as duas maiores organizações criminosas do País, chegaram a um acordo em São Paulo - o PCC limita-se a seqüestrar, assaltar carros-forte, dentro de suas especialidades, e o CV ganha território para o tráfico.

As armas pesadas vêm do Uruguai e Paraguai, inicialmente pela fronteira e depois por aeroportos em cidades como Araçatuba, Ribeirão Preto e Atibaia. As leves são traficadas no próprio Brasil - das fábricas, lojas e da própria polícia. Torgan enviou um ofício ao secretário de Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, pedindo uma fiscalização melhor dos depósitos de armas paulistas. Ainda não obteve resposta. O deputado cearense, rápido e objetivo nas respostas, faz sugestões para a polícia paulista e, embora tenha o presídio de Presidente Bernardes como o melhor do País, critica o que chama de “mito do bloqueio dos celulares”.

JC - Quais as características do tráfico de armas no Estado de São Paulo?

Moroni Torgan - Primeiro, a organização que mais compra armas em São Paulo é o PCC. O Primeiro Comando da Capital tem vários arsenais espalhados por São Paulo. E tem centrais telefônicas, que os próprios bandidos do PCC encomendam a arma para fazer determinado delito. E eles disponibilizam então a arma para aquele bandido por aquele período.

JC - Onde ficam essas centrais? E os arsenais?

Torgan - Estamos trabalhando junto à Polícia para descobrir. Algumas dessas células foram descobertas, e pessoas foram presas. Mas uma boa parte deve estar funcionando. Há alguns anos eles tinham dois ou três arsenais grandes, agora eles têm uns 20 ou 30 arsenais. Diluíram porque se a polícia descobrir vai ser uma partezinha pequena. A tática deles é não ter arsenal grande, e sim pequenos, distribuídos entre as regiões. Com uma maior concentração na região metropolitana, mas também pelo Interior.

JC - Quem mais compra em SP é o PCC. Mas, no Brasil, qual a participação do PCC?

Torgan - O PCC atua muito de São Paulo para baixo, o Comando Vermelho de São Paulo para cima. São as duas maiores organizações, pelo menos as identificadas.

JC - O PCC seria o segundo maior comprador de armas do Brasil hoje?

Torgan - Acredito que sim. Não só arma, como munição. Munição mais do que arma. Munição é muito reposta, arma não tanto. A maior parte das apreensões que a polícia fez foi de munições. Infelizmente quase todas elas vindo da fronteira. Tem vindo arma e munição para São Paulo desde o Uruguai até o Paraguai.

JC - Quais cidades são mais estratégicas?

Torgan - No Paraguai estão fazendo o seguinte: entram dentro do Brasil e saem de vôos de dentro do Brasil. Como os radares do Sivam estão pegando os vôos que entram no Brasil, a técnica é entrar no mínimo uns 100 quilômetros dentro do Brasil, e então sair num aviãozinho que vai pousar no Interior de São Paulo, principalmente.

JC - Entram pelo Rio Paraguai?

Torgan - Alguns também naquela região do Mato Grosso, que pega Corumbá (MS) também. Por exemplo, em Ponta-Porã não tem rio. Boa parte do Mato Grosso do Sul é fronteira seca. Agora estão vindo muitas vezes da fronteira seca do Uruguai. Temos denúncias de que o PCC teria um foco lá no Sul só para esse suprimento de armas e munições. Temos Uruguaiana, atravessam o rio. Tem uma região fácil de atravessar o Rio no Paraná também, não em Foz, mas perto de Santa Catarina.

JC - No Estado de São Paulo qual município ou região é particularmente complicado?

Torgan - É esse Interior onde descem, por exemplo Araçatuba, mas também mais perto da Capital, Atibaia, Ribeirão Preto, alguns vôos em fazendas de Ribeirão Preto e região. Pega ali uma cidade grande, perto de Londrina, acho que Ourinhos. Presidente Prudente é muito longe, é mais para cá.

JC - O pessoal do combate à pirataria, Polícia Federal inclusive, diz que o Estado de São Paulo é estratégico, no caso do contrabando, por conta da farta rede de estradas vicinais, dispersando o que vem do Paraguai. São estradas boas...

Torgan - ... e sem nenhuma fiscalização. É verdade. O roteiro do contrabando, do tráfico de armas, do tráfico de drogas é mais ou menos o mesmo. Pelo menos tráfico de armas e drogas andam juntos. Todas as autoridades e bandidos que ouvimos na CPI confirmam isso: que do mesmo jeito que vem a droga vem a arma, não tem diferença. E como essas organizações criminosas financiam a compra das armas pelo tráfico de drogas, que representa 80% das atividades delas, então fica fácil de entender porque andam juntos. E porque se armam. Nem é tanto para enfrentar a polícia, mais para defender território. Os bandidos atuam na defesa do território, nem tanto em São Paulo porque o PCC tem mais ou menos o controle em São Paulo. O armamento em São Paulo é mais para fazer seqüestro, seqüestro-relâmpago, assalto a carro forte, assalto a banco. O armamento no Rio é muito mais para defender território. O Comando Vermelho atua muito mais no tráfico de drogas.

JC - Que sugestões o senhor daria ao governador de São Paulo e seu secretário de Segurança Pública?

Torgan - Em primeiro lugar temos de fazer um registro. Existe o Sinarm (Sistema Nacional de Armas), mas não a obrigatoriedade da polícia mandar todos os dados sobre as armas. Isso não permite um registro comum adequado. Em primeiro lugar, temos de fazer uma legislação - e vai ser nosso problema aqui, assim que voltarmos vamos ter de fazer logo essa legislação para colocar com urgência - em que temos de obrigar a todas as polícias a preencher um formulário, assim que entrar arma na delegacia, para mandar direto para o Sinarm. Se não tiver computador, que mande para sua regional, ou coisa parecida. Aí que vamos começar a ter esse controle, que não existe hoje no Brasil de forma adequada. Temos o Sistema Nacional de Armas, que deveria ter todas as armas apreendidas no Brasil - origem, como foram obtidas e tudo mais, não existe isso. Existe uma caricatura do que poderia ser isso.

JC - E além do registro?

Torgan - No que tange aos problemas de São Paulo em si, teríamos de ter fiscalização nas principais rodovias. E uma fiscalização móvel. Não adianta ter aqueles postos fiscais, porque todo mundo já sabe onde fica e arruma uma rota alternativa para se safar. Na fronteira a Polícia Federal não tem efetivo. Ou a PF triplica o efetivo ou integra as Forças Armadas na nossa fronteira, para não permitir a facilidade que existe hoje de transposição da fronteira. São algumas coisas que passam por uma nova legislação e atividades de planejamento operacional mais adequado, atividades de inteligência mais adequadas. O monitoramento desses telefones tem de ser feito de maneira mais efetiva, a polícia tem meios, através da Justiça, para fazer esse monitoramento. Se há centrais que estão fazendo esse tipo de trabalho, não deveria ser tão difícil para a polícia chegar nessas centrais. E poder de repente até não acabar com a central, usar para prender todo mundo que esteja envolvido. Muitas vezes você acaba prematuramente com uma central dessas e se evita usá-la para fazer investigação. Quando se esgota a possibilidade de investigação, que está todo mundo sendo preso, aí a gente estoura a central. O trabalho de presença nas estradas infelizmente hoje não temos.

JC - São Paulo tem uma política com presídios de segurança máxima. Isso não está sendo suficiente?

Torgan - Presídio de segurança máxima, tudo bem. Agora, já ficou provado na CPI o mito de que o bloqueador de celular funciona. Ele bloqueia um tipo de celular e deixa outros tipos abertos. E o bandido ligeirinho sabe que tipo está bloqueado, qual está liberado. Até fizemos uma reunião com as empresas de telecomunicações, para que junto com o Ministério das Comunicações chegasse a alguma coisa que bloqueasse realmente o celular, e não bloquear só uma onda de celular. Mas até agora não veio nenhuma resposta.

JC - Portanto não existe presídio de segurança máxima?

Torgan - Existe de segurança melhor. Considero o de Presidente Bernardes como o melhor presídio em termos de segurança no Brasil. Mas ainda tem que evoluir, mesmo Presidente Bernardes.

JC - Qual o contato entre PCC e Comando Vermelho, e quem afinal de contas paira por cima deles?

Torgan - A notícia que nós temos é que o PCC e o Comando Vermelho entraram num acordo. Inclusive aquela quadrilha do Naldinho, de Santos, ele seria do PCC e teria tomado território do Comando Vermelho na Baixada. E aí começou uma briga, mataram um braço-direito do Naldinho. Mas começou, terminou com a prisão do Naldinho e possibilitou um acordo entre Comando Vermelho e PCC. O PCC, que é mais vinculado a assalto, roubo de carga, carro-forte, seqüestros, está mais ou menos deixando um território de tráfico de drogas para o Comando Vermelho, que não interfere no território do PCC.

SSP responde

Com relação à entrevista com o deputado Moroni Torgan (PFL/CE), presidente da CPI do Tráfico de Armas, publicada por este jornal, em 12/02, a Assessoria de Comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo esclarece que:

1)A SSP não recebeu qualquer pedido de auditoria do deputado Moroni Torgan sobre a guarda de armas no Estado, e sim de informações sobre o tráfico e a apreensão de armas.

2)Quando ocorrem denúncias de desvios de armas, estas são apuradas imediatamente e, se constatada a responsabilidade de funcionários, estes são afastados e sofrem o competente processo administrativo.

3)A Polícia Rodoviária Estadual já prioriza operações móveis, como bloqueios-relâmpago e a Operação Cavalo-de-Aço (com motos), conforme sugere o deputado.

4)A ação da Polícia Rodoviária Estadual recebeu considerável reforço no ano passado, com a criação de duas novas Companhias TOR (Tático Ostensivo Rodoviário), responsáveis pelo policiamento das estradas estaduais num raio de 100 quilômetros da capital, em especial os sistemas Anchieta/Imigrantes, Bandeirantes/Anhagüera, Castelo Branco/Raposo Tavares e Airton Senna/Carvalho Pinto. Só a criação destas duas unidades representou um reforço do contingente da Polícia Rodoviária com 200 homens e de 30 Blazers e 60 motos, que têm sido empregados na apreensão de armas e drogas, resultando em maior segurança nas estradas paulistas.