08 de julho de 2026
Ser

Bullying: maldade sutil

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

No primeiro dia de aula, Cady é isolada pelos colegas de classe e alvo de gozação das “patricinhas” da escola. Para se vingar, ela passa a agir da mesma forma. A revolta também faz parte do cotidiano de Trevor, garoto que sofre com as agressões e humilhações da turma. Josie nunca foi beijada e é motivo de chacota, assim como a introvertida Melinda, vítima de piadas e apelidos maldosos no colégio.

Interpretados pelos atores Lindsay Lohan, Ben Foster, Drew Barrymore e Kristen Stewart nos filmes “Meninas Malvadas”, “Bang Bang! Você Morreu”, “Nunca Fui Beijada” e “O Silêncio de Melinda”, respectivamente, os personagens traduzem as conseqüências de um fenômeno cada vez mais freqüente nas escolas: o bullying.

De acordo com a Associação Brasileira de Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), o termo inglês - sem equivalente em português - é usado para denominar atitudes agressivas intencionais e repetidas, adotadas por um ou mais estudantes contra outro.

Executadas dentro de uma relação desigual de poder, o bullying causa dor e angústia para a vítima, explica Isabel Cristina Dalco, psicóloga clínica especializada em crianças e adolescentes. “Diariamente, alunos do mundo todo sofrem algum tipo de violência que vem mascarada na forma de brincadeiras”, diz a psicóloga.

Em 2002, a Abrapia realizou um estudo para diagnosticar o comportamento de crianças e adolescentes no ambiente escolar. A pesquisa reuniu mais de 5.800 alunos, de quinta a oitava séries de 11 escolas do Rio de Janeiro. Nas entrevistas, 40,5% desses estudantes admitiram ter se envolvido em situações de bullying naquele ano, sendo 16,9% alvos, 10,9% alvos/autores e 12,7% autores de bullying.

Um dos casos mais famosos sobre o tema ocorreu em Taiúva, Interior de São Paulo, em 2003. Alguns alunos, que entraram armados na escola e atiraram em colegas e professores, retratam reações de crianças vítimas de bullying - caso semelhante ao massacre de alunos na escola Columbine, em 1999.

Recentemente, outro fato - que pode ser caracterizado como bullying - envolvendo estudantes do ABC paulista também chocou a imprensa. Sem motivo aparente, uma garota foi trancada num quarto, humilhada e teve os cabelos cortados por suas próprias amigas.

Embora não seja novo, o fenômeno vem aumentando, principalmente em escolas brasileiras e desperta a preocupação de pais, educadores e da sociedade. Segundo Dalco, colocar apelidos, ofender, gozar, humilhar, discriminar, excluir, assediar, amedrontrar, entre outras agressões morais, caracterizam bullying.

“Essas atitudes, que até pouco tempo eram consideradas inofensivas, podem acarretar sérias conseqüências ao desenvolvimento psíquico dos alunos”, diz Dalco. As “seqüelas” vão desde a queda da auto-estima, depressão e baixo rendimento escolar até casos extremos, como suicídios, aponta a psicóloga.

Tecnologia

Apesar de pouco difundida, o cyberbulling é outra forma de agressão moral que vem se tornando mais freqüente no Brasil.

Os apelidos, difamações, discriminações, ofensas e humilhações ocorrem de forma intencional e repetida, a exemplo do bullying. A diferença é que essas atitudes são praticadas por intermédio da tecnologia, como mensagens no celular, bate-papo no MSN (programa de mensagens eletrônicas), páginas na Internet, blogs, fotoblogs e na página de relacionamentos Orkut.

O site, concentra diversas comunidades sobre bullying. Algumas delas, aliás, promovem campanhas anti-bullying ou programas de conscientização sobre convívio no ambiente escolar. Outras seguem o caminho oposto e ajudam a estimular as agressões morais, caso das comunidades “Sim Nós Fazemos Bullying” e “Eu Faço Bullying, e Daí? – dedicada a todos que fazem bullying, e são felizes com isso”.

Segundo a Associação Brasileira de Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia) – que possui um programa de redução do comportamento agressivo entre estudantes - atualmente, diversas pesquisas e programas de intervenção anti-bullying estão sendo realizadas na Europa e na América do Norte.

No Brasil, como reflexo dos trabalhos europeus, há alguns estudos sobre bullying no ambiente escolar. O objetivo é diagnosticar as causas e verificara as consequências dessas agressões morais e elaborar métodos de prevenção.