08 de julho de 2026
Geral

Café da manhã na praça: pão e oração

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

Alimento para o corpo e para o espírito. Com essa combinação, um grupo de voluntários há mais de dois anos prepara e distribui todos os domingos um lanche para os moradores de rua de Bauru, na Praça Rui Barbosa. Além do pão e do leite quente, os voluntários fazem orações, lêem passagens bíblicas e passam mensagens de otimismo a quem não possui nada, além de esperança.

Atuando com o grupo há cinco meses, Giovani Pereira da Silva é membro da igreja Apostólica Cristã e não se importa de revelar o seu passado. Ele, que hoje é voluntário e ajuda nas ações de domingo na praça, deixou o cárcere em 2005, após ficar 10 anos preso por latrocínio. “Foi um guarda da penitenciária que me chamou para a igreja. Quando saí, comecei a trabalhar como voluntário. Hoje tenho emprego, minha família. A sociedade me deu uma pena eu paguei”, conta.

A chuva que insistia em cair ontem pela manhã atrasou um pouco a reunião, mas assim que o restante do grupo chegou, as pessoas que semanalmente tomam seu café da manhã com os voluntários, começaram a se reunir. Além de Silva, o casal Guiomar e Roberto Cruz, do grupo Vaso Novo da Igreja Cristã Renovada, também enfrentou a chuva para levar a refeição à praça.

Ontem o grupo estava pequeno. Cerca de vinte pessoas foram até a mesa armada pelos religiosos. “Já cheguei a entregar quase duzentos pães”, lembra Guiomar. Antes do café da manhã, os três voluntários e os moradores de rua fizeram um círculo e de mãos dadas oraram e cantaram. Depois, cada um dos religiosos falou ao círculo com mensagens de incentivo. De longe, alguns observavam e eram chamados pelos voluntários a se juntar ao grupo.

Roberto lembra que o café da manhã é apenas um dos trabalhos do grupo. “Aqui conhecemos as pessoas e ficamos sabendo das suas necessidades. Depois, aqueles que demonstram interesse, são encaminhados à instituição”, explica Roberto. Os moradores que aceitam, são levados à Caverna de Adulão, também ligada à Cristã Renovada e que ajuda os assistidos a se livrar de dependência do álcool e de tóxicos. “Dessa forma, já reintegramos muita gente à sociedade”, pontua.

Livre da bebida há cinco meses, José Maria Pereira, 51 anos, se recuperou graças ao grupo. “Eu estava passando pela praça e me chamaram para o café da manhã. A partir daí, comecei a vir sempre. Se eu falto um domingo, sinto que meu coração não está completo”, conta. Após batalhar contra o alcoolismo, a luta de Pereira hoje é para conseguir um emprego fixo.

“Antes não parava nas empresas por conta do vício. Às vezes chegava para trabalhar embriagado e no dia do pagamento, me dispensavam. Agora eu não consigo serviço por causa da idade”, lamenta. Enquanto isso, vai fazendo bicos, catando latinhas e o que der para arrumar o dinheiro do almoço. Silva só não freqüenta a igreja com mais regularidade pois acha que ainda não está pronto. “Com a ajuda de Deus vou conseguir largar o cigarro. E só quando eu não tiver mais vícios, eu estarei preparado”, conta.

Para Pereira, o grupo é a sua família. “Eu nunca tive festa de aniversário. Ano passado fizeram um bolo e cantaram parabéns. Foi muito importante para mim. Quando a gente está naquela situação e alguém estende a mão, a gente só tem a agradecer”, se emociona.

Atraído a Bauru por promessas de emprego que não vingaram, Marco Antônio Brunhara, 36 anos, gaúcho de Arapongaí, encontrou no grupo amigos para atravessar os problemas de estar desempregado numa cidade onde não conhece quase ninguém. Pintor, jardineiro, eletricista, pedreiro, carpinteiro e motorista, apesar de contar com todas essas experiências no currículo, ele ainda não conseguiu emprego fixo em Bauru. Mas ele não perde a esperança e encontra nos voluntários o alento espiritual. “Venho não só pelo pão, mas pela amizade e principalmente, pela palavra de Deus.”