Porto Príncipe - Os protestos contra os resultados eleitorais no Haiti causaram sua primeira morte ontem, quando, segundo testemunhas, capacetes azuis da Organização das Nações Unidas (ONU) dispararam contra um grupo de manifestantes em Porto Príncipe. A Minustah (missão de estabilização da ONU) afirma ter disparado para o ar e nega ter ferido manifestantes.
Simpatizantes do candidato René Préval, que esperavam sua vitória no primeiro turno, invadiram o hotel usado pela comissão eleitoral. Com 90,02% dos votos apurados, Préval tinha 48,76%, o que o levaria para uma segunda etapa, em 19 de março, contra Leslie Manigat, que aparecia com 11,83%. Atrás, vinha “Charlito” Baker, com 7,93%.
Cerca de 125 mil dos 2,2 milhões de votos depositados no dia 7 foram anulados por suspeita de fraude. Os manifestantes acusam a comissão eleitoral de manipular os resultados para evitar a vitória de Préval, que governou o país entre 1996 e 2001, no primeiro turno. Assessores de seu partido, o Lespwa (esperança, em créole), chegaram a dizer após o início das apurações que o candidato liderava com mais de 60% dos votos.
Pelas ruas de Porto Príncipe, manifestantes armaram barreiras de pneus, aos quais atearam fogo. Apenas jornalistas e funcionários da Cruz Vermelha podiam passar. “Se eles não nos derem os resultados finais, vamos pôr fogo no país”, gritava um homem em meio à fumaça. O resultado era esperado para o último sábado.
Os manifestantes saíram das favelas e caminharam até as proximidades do Palácio Nacional, do bairro rico de Petionville e do centro nacional de totalização dos votos, perto do aeroporto. Tocavam tambores e gritavam slogans pró-Préval, exigindo que esse modesto agrônomo de 63 anos seja declarado presidente sem demora.
Perto do porto, do aeroporto e de alguns outros locais, era possível ver a fumaça dos pneus em chamas. O grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras cancelou um comboio que visitaria sua clínica na favela de Cité Soleil. “Ninguém pode impedir Préval. O desejo popular é o desejo de Deus”, disse Marjorie Saint-Fleur. “O povo vai prevalecer”.
No bairro de Petionville, um grupo chegou a invadir o hotel Montana, onde são divulgadas as parciais da apuração de votos. Conseguiram chegar ao lobby, abanando galhos de árvores - um costume no país - e cartazes de Préval, aos gritos de: “Chegou a hora”. Mas os capacetes azuis impediram seu acesso à parte do hotel usada como centro eleitoral. Alguns, então, pularam na piscina e subiram pelas escadarias do hotel, que abriga também o comando da Minustah, detido pelas tropas brasileiras sob as ordens do general José Elito Siqueira.
Em uma das sacadas, Desmond Tutu, bispo sul-africano e Prêmio Nobel da Paz, que na véspera pedira aos eleitores calma, observava a cena. Ele chegou a descer até o lobby do hotel e a pedir aos manifestantes que se contivessem. Pouco depois, a multidão começou a deixar o local.
Os embaixadores do Brasil, da França e do Canadá no país se reuniram com o chefe diplomático da Minustah, Juán Gabriel Valdes, e com representantes do presidente interino, Boniface Alexandre, para discutir a situação. Préval, que chegou a Porto Príncipe a bordo de um helicóptero da ONU, recusou-se a mandar uma mensagem a seus simpatizantes. “Não agora”, respondeu a jornalistas que o indagaram, sem interromper seu percurso.