Brasília - Um grupo de prefeitos petistas, além do governador do Acre, Jorge Viana (PT), se reuniu ontem com discursos divergentes sobre dois temas centrais que deveriam pautar o jantar comemorativo dos 26 anos do partido, que ocorreria na noite de ontem: a melhor data para o anúncio da candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a escolha dos aliados da chapa, após o escândalo do “mensalão”.
O pré-encontro dos petistas, ocorrido na tarde de ontem, foi um convite do presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), para tentar alinhavar um discurso sobre esses dois assuntos antes do jantar promovido para arrecadar recursos destinados a pagar dívidas da sigla e cuja principal estrela seria o presidente.
Lula deveria falar de improviso, num tom de estímulo à militância, e a intenção era de não assumir a sua candidatura à reeleição. Segundo a assessoria do PT, quase todos os mil convites postos à venda foram vendidos, o que deverá render uma arrecadação de R$ 1 milhão ao partido. Os ingressos de R$ 200,00 e R$ 500,00 foram os primeiros a se esgotar - restaram entradas a R$ 1.000,00 R$ 2.000,00 e R$ 5.000,00.
O aluguel do salão de festas da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), em Brasília, custou R$ 4.000. Os principais expoentes das divergências sobre a oficialização da candidatura de Lula e a política de alianças para disputar a eleição foram o prefeito de Recife (PE), João Paulo, e Jorge Viana, cotado para coordenar a campanha de reeleição.
Ao chegar ao encontro, João Paulo afirmou que a antecipação do anúncio favoreceria a costura de alianças mais sólidas nos Estados. “O melhor para nós pode não ser o melhor para o presidente. Se lançasse agora ajudaria muito no perfil das alianças nos Estados”, disse o prefeito, que deixou a reunião antes do final.
Durante a plenária, prevaleceu o discurso de Viana: “Só vamos perder ao transformar o presidente Lula em candidato neste momento. O que vamos ganhar em transformar o presidente em candidato? Porque na hora que isso acontecer, teremos um candidato, não mais um presidente”.
O argumento de Viana, que tem o apoio do Palácio do Planalto, é de que o partido deve aguardar a definição do cenário que enfrentará, com o anúncio dos adversários, especialmente por parte do PSDB e do PMDB. Do outro lado, uma ala de prefeitos e deputados defendem que a demora do anúncio de Lula gera impaciência dos aliados e prejudica os acordos para formar chapas nos Estados.
Nos bastidores, Lula afirma que oficializará sua candidatura até junho. Outro ponto de polêmica é a união com siglas desgastadas com o escândalo do “mensalão”, principalmente o PTB e o PP. A contragosto de alguns prefeitos, Viana defendeu “uma aliança ampla” e chegou a afirmar “que esses partidos são o que o Brasil tem”. “Só se governa com política de alianças, e a crise deixou a lição de que é necessário sermos mais amplos”, disse.
Depois, ele também alfinetou o PT paulista: “Para os companheiros de São Paulo, parece que ganhar o Brasil não é importante, é mais importante ganhar São Paulo”. Em discurso, Berzoini cobrou a formação “do melhor time”.
Ao deixar o encontro, negou que o jantar ocorreria cercado por polêmica. “Conversamos, mas não de maneira conclusiva. Quem tem inteligência política trabalha para reduzir o grau de polêmica e construir consenso. Essa é a minha tarefa, até mesmo renunciando à opinião quando necessário, porque precisamos trabalhar para unir o Brasil em torno da reeleição do presidente Lula”, disse.