MPB, pop, rock, blues, samba, “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”. O show do disco homônimo - um dos melhores a chegar às lojas no ano passado e o mais completo de sua carreira - traz ao Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru a cantora, a compositora, a grande intérprete das canções - suas, de parceiros, da memória, do coração - que afasta-se da pretensão vaidosa de querer agradar uns ou outros e parece buscar apenas o que a diverte, sua catarse pessoal na música. Eis Zélia Duncan.
A atual fase de sua carreira vem na corrida de dois ótimos projetos, que tomaram/ganharam os dois últimos anos. De uma série de shows especiais, surgiu “Eu Me Transformo em Outras”, CD e DVD gravados posteriormente em estúdio, com os músicos tocando juntos. Canções de Herivelto Martins, Haroldo Barbosa, Tom e Vinicius, Wilson Baptista, Cartola e até mesmo Itamar Assumpção e Luiz Tatit receberam toque intimista, saudoso, festivo. Logo depois, Zélia jogou-se em “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, sua “volta ao pop depois de um disco de samba” porém que é, sobretudo, um álbum de carreira, coerente com tudo o que ela havia feito até então, incluindo “Eu Me Transformo...”.
O show é o disco, em resumo, recheado ainda com os sucessos de sua carreira, as canções marcantes, as influências, parcerias e celebrações da carreira. Acompanhada por Ezio Filho (contrabaixo e direção musical), Webster Santos (guitarra), Leo Brandão (teclado), Fábio Luna (bateria) e Jadna Zimmerman (percussão), Zélia vem se mostrando livre nos palcos, elegante, dona das canções que escreve ou interpreta. “Quando comecei a fazer o ‘Eu Me Transformo’, senti como realmente cantar é uma coisa especial para mim. Eu que tentei o tempo todo deixar isso mais despojado, ali pude abrir a porta para o canto, mandar flores, ser mais galante com o canto do que normalmente sou”, diz ela em material de divulgação do último disco.
O discurso poderia ser pretensão padronizada de artista bem sucedido, que busca o novo, um tanto artificial, para tentar surpreender ou coisa assim. No caso de Zélia, o destaque para o cantar, um projeto com canções que tocam sua história e a elaboração de um novo CD que ilumina tudo o que é produzido em sua carreira é mais do que coerente. É sincero e tem qualidade.
A variedade no repertório do show deve seguir o que os fãs conhecem do disco “Pré-Pós...”, produzido pelo eterno parceiro Christian Oyes e Beto Villares. Tem um samba, “Quisera Eu”, com letra de Zélia e música de Lulu Santos. Do samba, a cantora tirou Mart’Nália e fez a delicada “Benditas”. A parceria freqüente com Lenine deu origem à canção-título, pop: “Todo mundo quer ser bacana/ Álbuns, fotos, dicas pro fim-de-semana/ Filmes, sebos, modas, cabelos/ Cabeça-feita, receitas perfeitas/ Descobertas geniais”, diz a letra.
De Simone Saback, Zélia resgatou “Mãos Atadas”, blues gravado com Frejat homenageando Cássia Eller. Há quatro composições ou co-autorias do bendito Itamar Assumpção no disco. É impossível apontar destaques, só resta torcer para que Zélia mostre “Vi, Não Vivi” e “Milágrimas”- esta, sem dúvida, uma das mais lindas e comoventes canções brasileiras, sim, de todos os tempos.
Na fusão e coesão de gêneros, compositores e tendências, Zélia Duncan é segura, delicada, ousada e sincera com sua música. Espere um dos shows do ano.
• Serviço
Zélia Duncan com o show “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, hoje no Sesc a partir das 21h. Ingressos a R$20,00 e R$10,00 (matriculados, estudantes com comprovante e maiores de 60 anos). Mais informações: (14) 3235-1751.