08 de julho de 2026
Geral

Prefeitura perde professor para Estado

Por Nélson Gonçalves | Colaborou Ligia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

A Secretaria Municipal de Educação está enfrentando a “evasão” de pelo menos 28 professores de sua rede neste mês. A maior motivação para a troca das salas de aula está no fato da remuneração estadual ser mais do dobro, para início de carreira, do valor pago pelo Município.

A administração minimiza que as perdas não chegam a ser debandada, em razão do quadro de toda a rede municipal ser de 980 profissionais. Entretanto, a disparidade nos vencimentos da carreira entre Estado e Município alertam para o abismo da desvalorização e desmotivação no magistério nas salas de aula.

De qualquer ângulo que se analise, o comparativo salarial mostra as desvantagens em ser contratado pela prefeitura. O salário-base em vigor na estrutura local está muito próximo do salário mínimo, R$ 351,48. No Estado, o menor pagamento é de R$ 835,12.

Mesmo com as vantagens adicionais, o professor da rede municipal sai perdendo, de longe, para o colega que alfabetiza no Estado. Com o atual abono de R$ 100,00 e 10% de gratificação, os professores da prefeitura conseguem chegar só perto de R$ 488,00 de salário. No Estado, as vantagens levam o vencimento para R$ 1.100,00.

Se em ambos os casos o ganho do professor pode ser qualificado de “irrisório” diante do desafio de educar, na prefeitura a situação poderia ser classificada, pela proporcionalidade, de miserável.

Por esta e outras razões é que, a partir da semana passada, o Diário Oficial de Bauru (DOB) veio recheado de exonerações de professores municipais que optaram pela admissão junto ao Estado em função da convocação do último concurso público.

Mas a diretora de Divisão de Ensino Fundamental, Rosangela Redondo Ribeiro, vê outras motivações na mudança de patrão para os que estão saindo. Segundo ela, uma parte só está assumindo no Estado porque não há como compatibilizar a presença nas duas redes. “Há casos de professores que preferem o Estado, mas a maioria quer se manter no Município. Muitos inclusive pediram licença por um ano só para não perder a vaga no Estado, mas com o compromisso de voltar depois desse prazo”, avalia.

A diretoria ainda aponta para o fato de que os 28 professores que estão saindo das salas de aula da prefeitura, neste momento, não representam nem 3% do total de profissionais lotados na administração.

Conforme a administração, 11 exonerações ocorreram no setor de ensino fundamental, por professoras que não teriam direito ao afastamento. Outros 17 casos são de profissionais do ensino infantil, que pretenderiam retornar às salas de aula municipais após um ano de atividades no Estado.

Frustração

Mas o sentimento, na prática, é de frustração, mesmo para quem ficou no Município. A professora Sandra Spiri, por exemplo, foi aprovada no concurso estadual, mas não quis assumir as aulas, pois foi nomeada para uma escola em São Paulo e não quer se mudar. Como não conseguiu a transferência para Bauru, teve de abrir mão da rede estadual. Há 17 anos, ela ministra aulas para a pré-escola no Município.

“É lamentável. O Estado não é perfeito, mas oferece uma série de condições para o professor aprimorar, além do salário, que é muito mais vantajoso. O salário inicial da rede estadual é o que eu ganho após 17 anos como professora da prefeitura”, manifesta.

A possibilidade de reciclagem na rede estadual também é maior, segundo Spiri. “Além disso, o governo oferece subsídio para os professores fazerem mestrado, doutorado. A prefeitura não investe nisso”, revela.

Com tanta desvantagem, as educadoras convivem com o conflito entre o idealismo e a sobrevivência. “Continuo na rede, mas com a intenção de prestar concursos. Eu tenho paixão por dar aula, pela pré-escola, mas por questão de sobrevivência tentei entrar na rede do Estado. A rede estadual vai abrir concursos para direção e eu vou tentar prestar a prova. Se passar, vou ter que abrir mão de dar aula por necessidade”, finaliza.