08 de julho de 2026
Articulistas

Artigo sem título


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O leitor desta coluna provavelmente está acostumado a se deparar com um ou outro gracejo nos artigos publicados. Penso que o humor é um instrumento dos mais importantes para o questionamento da realidade, o que, por sua vez, é requisito fundamental para a evolução do pensamento. Existem até alguns cientistas categóricos em afirmar que a sofisticação do senso de humor é a grande diferença que separa a humanidade das outras espécies de animais. Não sei se eles estão realmente corretos, mas espero que sim.

Esta introdução é diretamente relacionada a um dos temas mais delicados da atualidade: os conflitos religiosos originados da publicação de charges do Profeta Maomé - inicialmente em um jornal dinamarquês - que acabaram se espalhando por quase toda a Europa. Depreciar símbolos alheios, especialmente religiosos, é algo talvez mais perigoso do que cutucar a onça com vara curta. Claro, não dá para ser favorável às manifestações violentas de grupos fundamentalistas muçulmanos. Mas também seria cinismo de nossa parte mostrar incredulidade frente ao que está acontecendo. Voltando ao exemplo da onça, quem eventualmente a cutuca não acha certo levar umas boas dentadas, mas a verdade é que o “cutucador” está se colocando na faixa de risco para que isto ocorra.

Chegando um pouco mais perto da nossa realidade, não raras vezes pessoas foram espancadas até a morte em São Paulo ou no Rio de Janeiro, simplesmente por estarem trajando a camiseta de um time de futebol adversário. Provavelmente o chargista dinamarquês não imaginou que iria ser a origem de tanta confusão. Mas aparentemente sua iniciativa acabou provocando importante fissura em uma panela de pressão prestes a estourar já há muito tempo. É impossível disfarçar neste início de terceiro milênio a existência de um choque de civilizações. Por um lado, temos o norte da África, Oriente Médio (incluindo o Golfo Pérsico) e vários países da metade sul da Ásia com uma clara diretriz de ordenação da organização social e do Estado a partir da religiosidade. No outro extremo, as nações de origem européia, incluindo a Oceania, Rússia e grande parte das Américas acabaram seguindo o caminho da racionalidade material originária dos antigos filósofos gregos, potencializando, assim, a liberdade de expressão e, conseqüentemente, o incessante questionamento da realidade. Dentro desta ótica, é muito difícil afirmar com certeza quem está com a razão. Afinal, são caminhos de civilização que partem de pressupostos predominantes diferentes e por isto mesmo acabam chegando a idéias várias vezes antagônicas a respeito do que seria um comportamento correto. Diante do impasse criado, seria demasiado simplismo apenas enunciar que as partes deveriam ter mútuo respeito de suas diferenças. O problema é que os dois lados estão mordidos.

Solução para o impasse? Aparentemente não existe a esta altura dos acontecimentos. Talvez o menos ruim seja simplesmente deixar a pendenga esfriar naturalmente, com os líderes globais fazendo vistas grossas às provocações de um e de outro lado. A alternativa seria um enfrentamento onde todos acabariam derrotados. Por fim, uma última ponderação: analisando o antagonismo em foco sob um outro prisma, fica quase evidente que o materialismo ocidental esconde uma forte dose de religiosidade; enquanto a religiosidade muçulmana esconde uma forte dose de materialismo. O melhor, então, é ficar de fora dessa briga, pois as variáveis e valores envolvidos formam uma intrincada matriz de relações que tanto podem chegar à conclusão de que tudo é igual, ou que tudo é diferente. Por este motivo não me atrevi a colocar o título deste artigo. Vá lá que alguém se ofenda. Tô fora!

O autor, Eduardo Starosta, é colaborador da seção Opinião