Brasília - O PT e o PSDB fizeram ontem um acordo para que fosse encerrada a tumultuada sessão da CPI dos Bingos antes do término do depoimento do juiz Julier Sebastião da Silva, da 1.ª Vara da Justiça Federal do Mato Grosso.
Com o fim da sessão, ele não conseguiu explicar os detalhes de uma linha de investigação sobre a suposta sociedade entre o empresário de jogo do bicho no Mato Grosso João Arcanjo Ribeiro e os empresários Ronan Maria Pinto e Sérgio Gomes da Silva em empresas de ônibus em Santo André (SP) e Fortaleza.
A convocação do magistrado tinha como objetivo esclarecer um possível envolvimento de Arcanjo no assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel já que Sérgio foi apontado como o “mandante” do crime pela Promotoria. Na sessão de ontem, o juiz acabou relatando as relações de Arcanjo com o PSDB mato-grossense, sobretudo com o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), que é integrante da CPI.
O término prematuro da sessão resultou no adiamento por tempo indeterminado do depoimento do procurador-geral da República Pedro Taques. “Fizeram um grande acordo porque ninguém quer que a verdade seja revelada”, disse o procurador. Taques também havia sido convocado para explicar o suposto envolvimento de Arcanjo com o assassinato de Daniel, em 2002. Como o juiz Sebastião da Silva, ele também tem informações sobre as relações do empresário do jogo do bicho com o PSDB no Mato Grosso.
Arcanjo é apontado como financiador das campanhas tucanas em 1998 e 2002. O caso atinge o senador Antero Paes de Barros porque ele foi candidato nos dois pleitos. Munido de um dossiê contra o juiz, o senador usou o telão da CPI para mostrar documentos que, segundo ele, comprovariam que Sebastião da Silva é “mentiroso”.
Para contra-atacar, o juiz leu decisões judiciais contra Arcanjo e o PSDB do Mato Grosso e afirmou que pessoas ligadas ao empresário faziam parte do alto escalão do ex-governador tucano Dante de Oliveira, que governou aquele Estado de 1995 a 2002. Durante a sessão, o senador tucano e o juiz bateram boca e trocaram acusações por mais de duas horas.
Sentado ao lado de Antero, Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado, fez questão de defender o colega. Enquanto o acusado apresentava denúncias contra o juiz, Virgílio gesticulava muito. Para alguns senadores, ele teria feito pelo menos um gesto obsceno. A senadora Ana Júlia Carepa (PT-PA) pediu calma. Irritado, Virgílio respondeu: “Eu quero você (Ana Júlia) quietinha hoje”.
Após o fim da sessão, o líder do PSDB negou que tivesse feito gestos obscenos. O tucano negou a existência do acordo. No corredor da comissão, encontrou-se com Pedro Taques e disse: “Se o senhor quiser vir depor, eu assino sua convocação agora”. O encerramento da sessão foi proposto pelo senador Tião Viana (PT-AC).
“Nos bastidores, a gente sentia uma tensão muito grande, por isso não poderíamos seguir. (...) Ali, o juiz simbolizava o Poder Judiciário e o senador, o Legislativo. Quem iria prender quem?”, questionou o senador petista. Os advogados de Gomes da Silva e a assessoria de Ronan informaram que os dois não conhecem nem nunca tiveram sociedades ou negócios com Arcanjo.