10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: ‘Sem voluntariado, País vira caos’

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 8 min

Ela já ficou entre a vida e a morte na cama de um hospital ao enfrentar doenças terríveis. Mas, mesmo depois de estar desenganada pelos médicos, conseguiu recuperar-se plenamente das adversidades de saúde. O fato, que ela considera quase como um “milagre” operado por interferência divina, mudou para sempre os rumos da vida de Lyenne Berriel Cardoso, presidente da Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC).

Desde então, ela prometeu fazer algo para “pagar” a “obrigação” que considerava dever a Deus por tê-la salvado da morte. E cumpriu resolvendo ajudar como voluntária os pacientes de câncer, tarefa que realiza, com dedicação e empolgação infindáveis, há mais de 30 anos em Bauru.

Em entrevista ao JC, Lyenne defende o voluntariado como forma de evitar o caos social no País, fala das dificuldades enfrentadas na rotina do tratamento do câncer pelos pacientes e é enfática ao afirmar que a doença não é uma “sentença de morte”.

Além disso, ela detalha os trabalhos desenvolvidos pelos voluntários na associação para humanizar o atendimento às vítimas do câncer e fala da importância da parceria com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru para a construção da nova ala oncológica inaugurada recentemente no Hospital Manoel de Abreu, local que Lyenne sonha em transformar em um centro de referência e excelência em oncologia. Leia a seguir os principais trechos:

JC – O que levou a senhora a tornar-se voluntária em uma área tão delicada como é o tratamento do câncer?

Lyenne – Sempre vivi isso em minha casa. Minha mãe e irmã sempre foram voluntárias, mas estava com filhos muito pequenos e estava esperando uma chance para começar isso. Quando, em 1973, estava com 31 anos tive um aneurisma cerebral e três derrames e fiquei completamente desenganada. Imagine meu desespero com quatro filhos, sendo que o menor nem andava, e eu naquela situação. Fui para São Paulo e fiz uma cirurgia muito grande em uma época que não existia nem a tomografia e fiquei perfeita. Tenho dificuldades com o braço esquerdo e não sinto muito cheiros, mas nada que me atrapalhe.

Quando você fica doente, você quer até barganhar com Deus e faz promessas do tipo “se eu ficar boa farei tal coisa”. Por isso, quando saí disso, achei que devia uma obrigação a Deus, pois foi ele quem me salvou. Por isso, quis ajudar o povo que considero o mais sofrido, que é o paciente de câncer que não tem recursos e precisa da ajuda dos governos ou de instituições que lhe dêem possibilidades de sair do desespero que é um diagnóstico de câncer.

Assim, achei que poderia fazer muita coisa, entrei de cabeça e gostei muito, pois ser voluntário é um dom e você transforma o trabalho em alegria. Minha sogra, cunhada, sobrinhas e marido me ajudaram muito, pois ser voluntário exige dedicação plena. Sem eles não poderia me dedicar, pelo menos, oito horas por dia à associação.

JC – Ser voluntário exige sacrifícios e mudanças na vida pessoal?

Lyenne – Muitas, mas você não considera o voluntariado como um sacrifício. Você faz e não sente que está se sacrificando. E conseguimos, com um voluntariado muito bom, grandes coisas. É uma equipe que tem garra e batalhadora, pois o possível a gente faz todo dia e o impossível pelo menos três vezes por semana. Por isso, não foi à toa que o primeiro ano do novo milênio foi dedicado ao voluntariado, pois se este fechasse as portas e cruzasse os braços haveria um caos social no País. Pense em Bauru se todas as entidades fizessem isso, o que poderia ocorrer?

JC – A senhora tem razão, pois o voluntariado preenche uma lacuna deixada...

Lyenne – O que o governo não pode fazer a gente arregaça as mangas e faz. E com muito amor. Lógico que deveria ser uma obrigação cumprida pelos governos, mas se eles não fazem vamos deixar as coisas assim? Se não tiver gente ajudando as crianças, os doentes, os idosos e em todos os setores aqueles que não têm condições, daqui a pouco isso vai transformar-se em uma violência generalizada.

JC – A senhora acha que todo mundo pode ser voluntário, independentemente de classe social ou poder aquisitivo?

Lyenne – Claro. Tem pessoas que não gostam de enfrentar doentes, pois se sentem mal e ficam com problemas. Mas não é preciso limitar-se a essa atividade porque há milhões de coisas que podem ser feitas como voluntário.

JC – Desenvolver essas atividades e conviver com o sofrimento dos doentes de câncer não são tarefas fáceis. O que a senhora faz em casa para relaxar?

Lyenne – Aproveito de uma família maravilhosa para isso. Tenho quatro filhos que estão sempre alegres e de bem com a vida e todas as nossas refeições são uma delícia. E meu marido sempre me ajudou muito pois, às vezes, a gente faz festas e sai só de madrugada. Ele sempre confiou plenamente em mim, me deu essa liberdade e agora está ajudando aqui no hospital. Também tem o seu Peixoto aqui do hospital, um carioca que atua como gerente administrativo que tudo para ele tem solução.

JC – E quais são as maiores dificuldades enfrentadas por um paciente que sofre com o câncer?

Lyenne – Muitos ficam com vergonha por estarem doentes. Um chefe de família, por exemplo, não se conforma e não aceita ficar nessa situação e não poder dar assistência à mulher e aos filhos. E, se ele ganha R$ 500,00, R$ 600,00 e entra na licença-saúde pelo INSS, ele vai ganhar o salário-mínimo. E quem é autônomo perde tudo, pois não pode mais trabalhar e aquilo que ele ganhava não ganha mais. A maior parte dos nossos pacientes autônomo, não paga o INSS e, por isso, não tem dinheiro. Além disso, o câncer é uma doença preconceituosa porque quem o tem acha que vai morrer.

JC – Mas o câncer então não significa uma sentença de morte...

Lyenne – De jeito nenhum. O que temos que tentar trabalhar, o máximo possível, é na prevenção. Às vezes, a pessoa acha que tem uma doença e tem medo de vir por causa do diagnóstico. Tem gente que vai deixando e chega em um ponto que não tem mais o que fazer. Os problemas começam com a falta de cuidados na família. O câncer realmente é uma doença difícil e, em muitas vezes, dolorosa. Mas ela também dá possibilidade da pessoa viver e conviver muito bem com ela e, depois que se passa de uma determinada fase, vira quase uma doença crônica que ela tem que estar sempre indo ao médico ver se está tudo bem e não pode abandonar.

JC – Quais são os de maior incidência em Bauru?

Lyenne – Pulmão, mama e próstata, que está aumentando muito porque o homem ainda cultiva o preconceito contra o exame preventivo. Acho que deveria haver uma campanha mais maciça com pessoas que apreciamos, como artistas de cinema e de TV, e mostrando que elas fazem o exame para que as pessoas se espelhem neles.

JC – E o trabalho na associação?

Lyenne - Temos entre 260 e 280 doentes/mês que ajudamos. Eles não têm roupa de cama e nem para vestir, comida e os filhos estão na miséria. Outros já passaram por essa fase. Damos ao paciente aquilo que ele precisa e a assistência psicológica e social a gente dá sempre, pois eles precisam de alegria, bem-estar físico e orientação.

JC – E como vocês concretizaram a nova ala oncológica que foi recentemente inaugurada?

Lyenne – Fizemos um projeto e mandamos para o Ciesp explicando que tínhamos um projeto que contemplava não só a construção dessa ala, mas também a parte de diagnóstico. Nos entendemos com o Ciesp de forma tão plena que eles imediatamente deram R$ 120 mil, que saíram dos empresários. Foi um valor que não exigiu de ninguém um sacrifício tão grande e conseguimos esses 30 leitos com a melhor qualidade possível. Não é nada luxuoso, mas tudo é muito bom, pois o paciente tem de entrar aqui e saber que aqui tem vida e qualidade, que ele é muito bem-vindo e não pode ter vergonha de entrar no hospital.

JC – Bauru teria condições de tornar-se um centro de referência e excelência em oncologia semelhante ao Hospital Amaral Carvalho, em Jaú?

Lyenne – Claro. Temos tudo para isso. A começar por ótimos médicos e estamos transformando o Hospital Manoel de Abreu em um local próprio e funcional para o tratamento do câncer. Atualmente somos Cacon 1 (Centro de Complexidade de Oncologia) e recebemos por um número de procedimentos que podemos fazer. Se conseguirmos ir para Cacon 2, teríamos maior quantidade de procedimentos, podendo atender mais gente e sermos melhor remunerados para efetuar o atendimento.

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Perfil

Nome - Lyenne Berriel Cardoso

Data de Nascimento - 8/8/1942

Naturalidade - Bauru

Profissão - Professora

Hobby - Costurar e bordar

Cor preferida - Azul

Time do coração - “Não sou muito de torcer, mas tenho simpatia pelo Corinthians.”

Livro que está lendo - O Monge e o Executivo

Para quem a senhora daria nota 10? “Além das enfermeiras que cuidam dos pacientes de câncer, merecem 10 os empresários do Ciesp e os vizinhos dos doentes que sofrem com a doença, pois eles ajudam muito.”

Para quem a senhora daria nota 0? “Para aqueles que usam mal o dinheiro público e os que têm condições e oportunidade de ajudar e não ajudam. Tem gente que pode e fecha os olhos e, por isso, tenho desprezo por pessoas assim.”