09 de julho de 2026
Geral

Equoterapia: uma forma prazerosa de recuperação

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 5 min

“O que eu mais gosto é ficar em pé no Espeto”. Tímida no começo, mas com sorriso fácil e falante depois de meia dúzia de palavras, Talita, 10 anos, portadora de síndrome de Down, está mais confiante desde que começou a praticar equoterapia, há oito meses. “Antes tudo para ela era ‘não sei’, agora ela consegue montar em um cavalo. Isto fez com que ela ficasse bem mais autoconfiante”; conta a mãe Daniela Piovesan de Oliveira.

Desde que a filha nasceu, Daniela começou a tomar conhecimento dos benefícios que Talita poderia ter com a equoterapia. “Li muito a respeito, mas em Bauru não tinha acesso a esta prática”, explica.

Há oito meses, Daniela ficou sabendo, através de uma enfermeira, que conhecia uma profissional que trabalhava com equoterapia. Assim, em maio do ano passado, ela chegou até Elna De Lira Cajueiro, fisioterapeuta responsável pelo Equo Saúde - Centro de Equoterapia de Bauru, instalado na Hípica de Bauru.

Daniela levou, além da filha, a irmã, Débora, 12 anos, também portadora de síndrome de Down. Afetuosa, comunicativa, a garota, que no início se mostrou resistente com contato com o cavalo, hoje é apaixonada pelo animal. “Em casa, elas se preocupam com o Espeto. Se chove, querem saber se ele não está na chuva, se estão cuidando dele direito, se ele não vai fugir”, conta Daniela.

Para Débora, os benefícios da atividade são notados com a ausência do medo de altura. A garota que tinha de subir até em guia de calçada, que não tirava os pés do chão nem para pular corda, hoje monta a cavalo. A coordenação motora e o equilíbrio de ambas também melhoraram muito, segundo Daniela. “A Talita corria sem direção, caia muito. A Débora não tinha equilíbrio para pular com um pé só, por exemplo. Em menos de um ano, isto já melhorou bastante”.

Joel Rodrigues Filhos, 7 anos, sorri por tudo. Em contato com o cavalo, os olhos brilham. Vítima de derrame cerebral, o garoto chegou às mãos de Elna e sua equipe sem nenhuma coordenação, sem conseguir sustentar o corpo, não falava. Hoje, segundo sua mãe, Delma Regina Rodrigues, ele já consegue sustentar o pescoço, rolar na cama, abrir e fechar as mãos e começa a emitir alguns sons. “Tem sido muito bom para ele”, afirma.

O pequeno Joel é um dos alunos atendidos gratuitamente pelo Centro, cumprindo uma das exigências da Associação Nacional de Equoterapia (Ande): todos os centros de equoterapia devem ter, no mínimo, 10% de atendimento filantrópico.

Elna Cajueiro trabalha há três anos na área. Depois de um estágio em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ela refletiu sobre o seu destino profissional e chegou à conclusão de queria uma atuação que promovesse a melhora da qualidade de vida das pessoas.

Descobriu a Ande em Brasília. “Fui para lá, fiz os cursos de capacitação e me apaixonei pela equoterapia”, conta. Ao voltar, criou o Equo Saúde. Montou o escritório na Hípica de Bauru, da qual recebe apoio, sendo dispensada do aluguel das pistas.

Elna explica que a equoterapia, de acordo com a definição da Ande, é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência ou necessidades especiais.

Com a experiência que já adquiriu, a fisioterapeuta acrescenta à definição da Ande, o desenvolvimento também espiritual. “Porque eu sinto que todas as pessoas que praticam a equoterapia evoluem muito na parte espiritual.”

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Movimentos que regeneram

Os resultados positivos são muitos, de acordo com a fisioterapeuta. Um senhor de 65 anos que não andava dois quarteirões, hoje atravessa a cidade a pé. O rapaz com deficiência mental que sempre brigava no refeitório na hora de dividir o alimento, agora não está mais envolvido em confusões. “Os resultados são impressionantes”, afirma.

Esses progressos são obtidos tanto pelo contato com o animal, quando tecnicamente pelo movimento ritmado e tridimensional do cavalo. “O indivíduo em cima do cavalo ao passo é deslocado para frente e para trás, para cima e para baixo, de um lado para o outro e promove uma rotação de mais ou menos cinco graus na pélvis. Esse movimento é o mesmo movimento que o homem realiza enquanto está caminhando”.

A atividade beneficia as pessoas com necessidades especiais que têm o centro de gravidade deslocado, não têm equilíbrio. Elna explica que 30 minutos deste movimento ao passo (o cavalo tem três andaduras: ao passo, ao trote e ao galope), para começar obter os resultados positivos com postura, força muscular, relaxamento, equilíbrio, concentração, coordenação motora.

Uma equipe interdisciplinar é exigida pela Ande. Psicólogo, fisioterapeuta e equitador compõem a equipe mínima exigida, todos com curso de capacitação. Elna acrescenta a esta equipe o fonoaudiólogo, o educador físico e o psicopedagogo.

“O fonoaudiólogo é importante porque 99% dos praticantes têm algum tipo de comprometimento da linguagem. O psicopedagogo é muito importante no atendimento de crianças com déficit de aprendizagem, de atenção”, explica.

A presença de psicólogos é fundamental para aproximação do praticante com o cavalo. “O objetivo fundamental da equoterapia com psicólogo é ajudar no primeiro contato com o cavalo”, explica a psicóloga Carla Veronez Tashioka. “Através do lúdico, trabalhamos os medos, as inseguranças”. A grande vantagem da equoterapia na avaliação de Elna é o fato de ser realizada ao ar livre, em contato com a natureza.