08 de julho de 2026
Articulistas

A chuva


| Tempo de leitura: 3 min

O velho professor de Português pedia uma composição sobre “A chuva” para testar a acuidade dos alunos e sua capacidade de concatenar idéias a ponto de preencher quatro páginas de papel “almaço”. Aquele que revelasse conhecimento para desenvolver esse título de apenas meia dúzia de letras ganhava as simpatias do rigoroso mestre. Quem não conseguisse buscar inspiração nas águas de março a ponto de produzir alguma literatura certamente passaria apertado o resto do ano. Chamava de “analfabetos funcionais” aqueles com pouca intimidade com o vernáculo ou incapazes de concatenar frases. “Seres indignos das tradições do Instituto de Educação.”

Meus dois irmãos mais velhos já haviam passado pelo mesmo problema. Graças a eles, antes do início das aulas o meu discurso já estava mais que decorado. Era elaborado no laboratório doméstico após muitas idas e vindas ao “Thesouro da Juventude” da Biblioteca Municipal. Começava com um nariz-de-cera louvando o guarda-chuva, acessório indispensável para nos livrar dos incômodos das precipitações meteorológicas. A chuva era recebida como um incômodo por nós, urbanos, mas um evento benfazejo para as lavouras e as criações de gado – fazia questão de ressaltar. A partir daí vinham as erudições pré-fabricadas: dizia que o guarda-chuva existe desde tempos imemoriais. É visto em baixos-relevos assírios e persas e em pinturas dos templos faraônicos. Nesta altura ocorria a dúvida: seria guarda-chuva ou guarda-sol? Esses caras viviam no deserto. Sei lá... Bola pra frente. Era o momento de utilizar uma frase que achei linda, na enciclopédia: “Na China e no Japão o uso do guarda-chuva perde-se na noite dos tempos”. Beleza pura. Pinturas sobre seda antiqüíssimas (o trema no ü foi muito elogiado pelo professor), pertencentes às antigas coleções imperiais retratavam o guarda-chuva (ou seria guarda-sol?). Fosse hoje poderia acrescentar que essas gravuras inspiraram a pintura de Van Gogh e outros artistas plásticos europeus dando origem à “japonnaiserie”, a pintura com as figuras em primeiro plano e o abandono da ditadura da perspectiva. Diria ainda do meu encantamento quando estive em Londres e vi os guarda-chuvas transformados em acessórios indispensáveis ao “look” dos homens de negócios da “City”. Usados como bengalas mesmo na época de estio, o guarda-chuva é um complemento de elegância do homem londrino, tanto quanto o chapéu-coco. Fico pensando como eles conseguiriam chamar um táxi, sem o guarda-chuva. Notei que em Paris o mesmo papel é desempenhado pelo pão em formato baguete. Os business-men jamais cederam a modernidades como guarda-chuvas coloridos ou dobráveis para ficar mais fáceis de transportar. Guarda-chuva, em Londres, é guarda-chuva. Preto, com cabo de cana-da-índia e, no máximo, algum aplique de prata.

Para mostrar alguma preocupação com o social, na minha “composição” comentava o problema das inundações, das crateras abertas no “leito carroçável” das vias públicas, o calvário dos desabrigados nos bairros periféricos. Naqueles tempos de JK era “chic” esse viés social. Infelizmente continua sendo uma preocupação fingida da imprensa burguesa. Tirei nota cem e fui chamado para ler minha “composição” na frente da classe. Gozei da simpatia e complacência do mestre durante o ano inteiro. O coitado nunca se perdoou de não ter conseguido me fazer aprender análise sintática. Esse feito só foi logrado pelo professor Gino Crês, já no cursinho vestibular. Padeci de remorsos por me sentir um desonesto intelectual por causa daquele improviso literário simulado. Anos depois, ao ler “As palavras”, de Jean-Paul Sartre, vim saber, que o futuro filósofo, quando criança fazia a mesma coisa na escola. Bela companhia! Mas, se tivesse que escrever hoje sobre a chuva reclamaria do desaparecimento da galocha. Tragada, provavelmente, pela transformação do homem num animal de quatro rodas. Deixamos de ser bípedes embora continuemos incapazes de sobreviver com os sapatos e as meias molhadas.

Concluiria lembrando da inspiração que os pingos da chuva provocam nos poetas e compositores. “É de manhã, vem os pingos da chuva que ontem caiu...” No verão bauruense a grama ressequida retoma o verde e as flores explodem em cores. Minha memória recupera a tempestade auditiva que Antonio Vivaldi conseguiu criar, no movimento dedicado ao Verão, do seu famoso “Concerto das Quatro Estações”. Ouçam!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC