A tradição do Carnaval volta às ruas da pequena Espírito Santo do Turvo (62 quilômetros a sudoeste de Bauru). Graças a uma parceria do poder público municipal e de profissionais de Bauru, há cerca de dois meses dois músicos e um artista plástico se deslocam três vezes por semana para oferecer à população do Turvo – como é conhecida popularmente – oficinas de bonecos gigantes, máscaras e bateria. As lições do curso serão colocadas em prática na sexta e na segunda-feira do Carnaval, quando a cidade será tomada pelo som do batuque e a alegria dos foliões mascarados.
O descanso das férias escolares transformou-se em batucada e fantasia. “Nós fizemos uma reunião para oferecer opções para os jovens ocuparem seu tempo, e assim surgiu a idéia das oficinas de bateria e de bonecos e máscaras durante os meses de janeiro e fevereiro”, conta a secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Cláudia Retz.
Para o regente da banda municipal e um dos coordenadores da oficina de bateria, Marcos Antônio dos Santos, são férias premiadas. “O Interior em geral tem poucas possibilidades de cultura e lazer, e essas oficinas proporcionam diversão e conhecimento”.
Bonecos gigantes
Num galpão da prefeitura, aproximadamente 25 jovens entre 15 e 20 anos reúnem-se três vezes por semana, para criar seus bonecos. Com bexiga, jornal, cola e muita criatividade, os participantes vão moldando personagens, a maioria figuras públicas que ocuparam durante o ano as manchetes dos jornais. “Eu os deixei livre para criar o que quisessem. Eles optaram pelo Lula e as figuras públicas da cidade”, explica o responsável pelo curso, o artista plástico Sérgio Segal, que ainda aponta as outras utilidades do curso. “A técnica para a construção dos bonecos pode ser aplicada em restauração de móveis e outros adereços para decoração”.
Para finalizar uma cabeça, são necessários em média seis dias. O processo é simples, mas exige paciência. Dois aprendizes trabalham sobre um mesmo boneco. A primeira etapa consiste em forrar os bexigões com folhas de jornal e cola. Com a estrutura firme, é só soltar a imaginação e moldar nariz, boca e olhos dos personagens. Depois é preciso dar cor e corpo aos “bonecões”, cuja estrutura é de espuma, PVC e tecidos. As roupas também serão costuradas pelos próprios alunos.
Para os mais novos, foi pensada uma oficina de máscaras. Cerca de 30 crianças entre 7 e 12 anos vão sair nas ruas da cidade no Bloco dos Bichos, com máscaras confeccionadas por elas próprias. Os envolvidos desenham seus animais preferidos e moldam suas máscaras. “A cabeça e o corpo de um boneco chegam a ter 10 quilos, o que é muito pesado para crianças. Por isso, escolhemos trabalhar máscaras com os mais novos”, diz Segal.
O que mais motiva o artista a percorrer os 62 quilômetros que separam Bauru de Espírito Santo do Turvo é poder resgatar a essência do Carnaval popular. “Hoje em dia, a festa está muito comercial. Aqui não; com papel e cola, todos trabalham juntos para desfilar na rua. É um trabalho mais humano, um convívio coletivo”, diz o artista, que já havia trabalhado nas escolas de samba paulistanas Gaviões da Fiel, Vai-Vai e Rosas de Ouro.
Batucada
Com o final da tarde, o silêncio típico da cidade vai sendo substituído pelas batidas do Carnaval. É a oficina de bateria que está começando no ginásio municipal. As pessoas se aproximam e pegam seus instrumentos, entre caixas, surdos, tamborins, repeniques e chocalhos. Na prática, os regentes Marcos Antônio dos Santos e Daniel Pereira inserem noções de ritmo e musicalização. “Aqui não tem muita teoria. O Carnaval é feito por ritmistas, não músicos”, coloca Pereira.
O samba é mais lento do que o da avenida. “Queria puxar um ritmo mais rápido, mas sempre caía durante a execução. Descobri que era preciso tocar num tempo mais tranqüilo, e deu certo”, conta Santos.
A possibilidade de participar do Carnaval agradou tanto a população que o regente acredita que faltarão instrumentos no dia. “Por isso estamos pensando em oferecer uma oficina de construção de instrumentos com latas para todo mundo ficar satisfeito”.
O maior empecilho para os músicos é a precariedade da maioria dos instrumentos. “A cidade está investindo, mas é preciso substituir a pele das caixas e do surdos com certa freqüência, além de adquirir outros”, aponta Santos. Os obstáculos não desestimulam os músicos. “O interessante daqui é que o Carnaval de rua é valorizado. Ultimamente, os desfiles são como uma esteira, passam rápido. Aqui é diferente, o tempo é outro e a velocidade da diversão também”.
A mesma empolgação que envolve os coordenadores também é sentida pelos participantes. O pequeno Gabriel Gonçalves, 11 anos, não perde um ensaio e manuseia a caixa com uma grande facilidade. “Eu sinto uma alegria imensa em tocar, além de fazer muitos amigos”, diz. Agora o garoto está formando uma banda de MPB e rock, onde tocará bateria. O gosto pela música veio cedo. “Eu via o pessoal tocando fanfarra e falei: ‘Vou tocar isso daí’”.
Além do prazer, o estudante Marcelo Aparecido Galdino, 16 anos, encontrou na oficina de bateria uma ocupação. “Se eu não estivesse aqui, estaria fazendo arte em algum lugar”, conta.
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Educação e Cultura
A iniciativa de promover educação por meio da arte partiu da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer. Desde o início da gestão, em 2005, a pasta tem retomado alguns projetos interrompidos nas últimas administrações, como o da Banda Municipal e do Carnaval popular. “São maneiras da população trabalhar de forma participativa, brincando. Com as atividades, os jovens adquirem conhecimento e aprendem novas habilidades que poderão ser utilizadas para outros fins”, diz a titular da pasta, Cláudia Retz.
Com este objetivo, a cidade ganhou dois novos regentes, ambos residentes em Bauru, e os instrumentos empoeirados por 8 anos sem uso tiveram nova roupagem e conquistaram crianças e adultos. Mesmo com carências, a banda iniciou sua reestruturação no começo do ano passado e reúne hoje cerca de 30 adolescentes, sob a regência de Marco Antônio da Silva. A cidade também investiu no canto-coral. Desde o final do ano passado, o regente Daniel Pereira coordena quatro coros de crianças, jovens e adultos. A banda e os coros seguem o calendário e escolar e devem retomar suas atividades com o início das aulas.