A veia soul sempre foi marca registrada do cantor e compositor Maurício Manieri, mas, desta vez, ele resolveu arriscar, incluindo rock’n’roll, pop, balada e música instrumental em seu novo trabalho. E o artista não decepcionou.
Em “Agora que voltou”, quinto disco de carreira, Maurício mostra diversidade e arranjos criativos. Na seleção, se destacam “Quero ver quem vem”, “Deixa rolar, “Se quer saber”, entre outros hits, que visam agradar a qualquer tipo de púbico.
Lançado ano passado, o CD é dedicado ao irmão de Maurício, o guitarrista Marcelo Manieri, que morreu antes do início da turnê de divulgação do novo disco. O repertório traz duas canções em homenagem a Marcelo, entre elas “Hey Brother”, com arranjos inspirados no som de Eric Clapton e uma das mais emotivas do repertório.
“O Marcelo tinha seu próprio jeito. Pouco antes de sua morte comentei que ele estava tocando muito bem”, diz Maurício, em um bate-papo concedido à equipe de reportagem no último dia 8, durante visita ao Jornal da Cidade.
Sentindo muito a ausência do irmão, o cantor dá início a uma nova fase em sua carreira. “‘Agora que voltou’ é uma volta à minha característica de produzir e fazer música. O CD tem a minha cara”, diz, explicando que nos discos anteriores contava com a ajuda de Marcelo na produção dos álbuns.
“Marcelo imprimia muito a questão técnica no trabalho. Eu gosto de priorizar o lado emocional”, observa Maurício. Essa característica é evidente desde o início de seu trabalho, com os sucessos “Meu Bem Querer” e “Minha menina, que foi tema da novela “Andando nas nuvens” e alavancou sua trajetória artística.
Desde então, Maurício lançou outros álbuns, como “Apartamento 82” e “Quero ver quem vem”, e conquistou fãs em todo País. Mas, a exemplo de muitos artistas, enfrentou um longo caminho até conseguir iniciar sua carreira. Nascido e criado em São Bernardo do Campo, São Paulo, Maurício estudava engenharia e dava aulas de piano. Para realizar o sonho de ser cantor e compositor, desistiu da faculdade e do trabalho como professor. Durante anos, gravou jingles para campanhas publicitárias.
Além disso, o cantor acompanhou diversos músicos, como Thaíde e DJ Hum, Double You, Culture Beat, Alexia e Undecover. Tanto esforço não foi em vão. Em 1998, fechou contrato com uma grande gravadora.
No ano seguinte, estreou no mercado com o álbum “A Noite inteira”. Do primeiro ao último disco, o cantor acumula oito anos de dedicação, aprendizado e aperfeiçoamento musical.
Confira mais sobre sua trajetória, detalhes do novo álbum, parcerias e projetos.
Jornal da Cidade - Como você avalia o momento atual da sua carreira e como esse disco novo se encaixa nele?
Maurício Manieri - Na verdade, de inéditas nesse disco, há uma música que eu fiz em homenagem ao meu irmão. Para o CD, escolhi algumas músicas que não são conhecidas do grande público. Algumas músicas gravei ao vivo, outras fiz arranjos acústicos. Sinceramente acredito que este seja um dos meus melhores trabalhos.
JC - Por quê?
Manieri - Particularmente, gostei bastante do resultado final. Não é um disco que, quando se escuta, tem a sensação de disco de estúdio. É um álbum com a minha cara: mais solto e desencanado. Acho que priorizei nesse momento a questão emocional ao invés da questão técnica. Nos outros discos, meu irmão estava produzindo comigo. Ele imprimia muito a questão técnica no trabalho. Eu gosto de priorizar o lado emocional.
JC - Como foi entrar em estúdio após o acidente com seu irmão?
Manieri - Foi difícil. Não só entrar em estúdio, mas tocar e fazer shows. Até me adaptar novamente foi complicado porque olhava para o lado e pensava ‘cadê meu irmão?’”. O Marcelo imprimia novidades dentro dos shows e estava tocando muito bem. Ele realmente é um grande guitarrista e a maioria das frases de guitarra e violão era de sua autoria, o trabalho ficava bacana nos shows. Senti muito a falta dele, apesar do atual guitarrista ser excelente. O Marcelo tinha seu próprio jeito. Ele fazia as frases, era a cara dele. Pouco antes de sua morte, comentei que ele estava tocando muito bem. E agora foi diferente porque eu produzi um disco sozinho. Fiz o primeiro disco com Igor Artuso e Dudu Marote e ele tinha bem a minha cara, evidente que era outra época. Nos discos “Apartamento 82” e “Quero Ver Quem Vem”, o Marcelo já coloca sua cara nos arranjos. E “Agora que Voltou” é uma volta à minha característica de produzir e fazer música.
JC - Sem o seu irmão, o que muda em sua rotina, no processo de composição e na forma de levar as músicas para os shows?
Manieri - O Fabrício Miguel é uma pessoa que está me ajudando bastante. Ele já é meu parceiro desde o disco “Apartamento 82”. É talentoso e provavelmente vai lançar seu trabalho daqui uns anos. Percebo que o Miguel tem um talento grande e estou com ele fazendo alguns arranjos. Ele tem idéias novas, vem com novidades, é bem antenado. E também converso muito com a banda, que possui grandes músicos, mas, no final, o CD sempre tem a minha cara, aquilo que eu acho que deve ser feito. Estou conseguindo me adaptar e de uma certa maneira estou entrando em contato com isso porque depois que meu irmão entrou na produção comigo, esse lado ficou um pouco amortecido e escondido. Agora, o trabalho tem totalmente a minha cara.
JC - O CD resgata algumas músicas antigas, dos outros discos. O show também mudou? Você já está viajando com um show novo?
Manieri - No disco, tem a música “Agora que Voltou”, que até foge um pouco das minhas características. Eu arrisquei um pouco. Ela não é um rhythm and blues (R&B). É um pop rock. Quando a toco no piano vira R&B, mas com a banda é pop rock. É uma música que gostei bastante de ter feito primeiro porque é um sucesso nos shows. Ela é divertida e fácil de cantar. Toda vez que faço uma composição, penso sempre nesse aspecto: se eu estou me divertindo e se a música está fazendo seu papel nos shows. Elas têm uma função específica, devem funcionar no show. E não é qualquer música que faz isso. Eu sempre tento colocar arranjos para o shows. Mudo os arranjos em “Agora que Voltou”, por exemplo. Ela fugiu um pouco do que estava acostumado a fazer. Isso é interessante porque abre um leque maior e criativo. Não fico limitado a uma esfera artística.
JC - Seu primeiro DVD, de 2000, registra principalmente o começo de sua carreira. Está em seus planos gravar um novo trabalho?
Manieri - Vou fazer, provavelmente este ano. É uma idéia e acredito que para o segundo semestre o DVD pode estar pintando.
JC - O novo CD tem músicas gravadas em Botucatu, no show do aniversário da cidade. Não rolou de lançar esse show inteiro ou em DVD?
Manieri - É muito recente. Nós estamos começando a trabalhar e gostaria de fazer uma superprodução. Gosto de espetáculos. Pretendo montar um trabalho bem legal e bacana. Provavelmente, neste DVD, vou escolher 20 músicas, sendo oito músicas novas.
JC - Para um artista, a importância dos DVDs é muito grande atualmente, não?
Manieri - Exatamente. Eu sou um artista de shows. Gosto de estar nos palcos. Já toquei para mais de 5 milhões de pessoas. Eu curto fazer shows e registrar isso é muito interessante. Mas, desta vez, pretendo mostrar um outro lado da carreira. Com a maturidade, começam a aparecer outras coisas interessantes do artista.
JC - Em seu trabalho não houve muitas parcerias com outros artistas. Por quê?
Manieri - Acho que isso tem um pouco a ver com minha personalidade. Sou um pouco assim mesmo. Cantei com poucas pessoas. O Xis no DVD, o Ivan Lins por conta de uma música de um filme (“Tigrão, o Filme”), mas essa característica tem a ver com meu processo de criação e origem artística. Comentava com meus amigos que eu seguia um movimento independente em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Nunca fui muito comum entre os músicos. Mas isso não significa que não estou aberta à parcerias. Esses dias conversei com o BJ Thomas, um grande cantor americano, e nós combinamos de fazer algumas coisas juntos.
JC - Como anda a sua carreira internacional? Tem feito alguns trabalhos na América Latina?
Manieri - Conheci agora esses artistas norte-americanos. Com o próprio BJ Thomas, eu fiz um trabalho no CD “Quero Ver com Vem” e foi muito interessante. Acho divertido porque posso enxergar a música de outra forma, ter influências de outro artista. Eu tinha um projeto de poder divulgar mais meu trabalho fora do País, mas antes preciso consolidar minha carreira no Brasil mesmo, para depois tentar coisas mais amplas. Mas já toquei no Exterior. Fiz um show para a comunidade brasileira nos Estados Unidos.
JC - O que você tem ouvido ultimamente?
Manieri - Ultimamente estou ouvindo só coisas antigas, flash back dos anos 80.
JC - Você não é de ficar procurando ou descobrindo coisas novas?
Manieri - Isso me preocupa porque eu sempre fui um cara de ficar escutando muita coisa nova. Gostava de saber o que estava acontecendo, principalmente nos anos 90, época na qual o hip hop nem era tão conhecido no Brasil, eu conhecia tudo e freqüentava o underground. Isso era legal. Mas, atualmente, não tenho tido muita paciência. Eu vejo alguma coisa passando na televisão, algumas acho interessante, outras repetitivas. Escuto muito som das antigas: New Order, Smiths, flash back dos anos 80, sucessos dos anos 70. Ouço muito Nat King Kole, estou tocando suas músicas no piano. Mas em relação ao hip hip novo, não estou escutando quase nada. De rock’n’roll, tem algumas coisas que acho legal, mas a maioria dos grupos que está em alta não gosto muito.
JC - Em relação às parcerias, você tem contato com essa geração de artistas que apareceu na mesma época que você?
Manieri - Gosto bastante do Max de Castro, Paula Lima, Simoninha, Jairzinho. Gosto muito do Ed Motta, considero-o um amigo, assim como o Sideral, mas não posso dizer que tenho tantas amizades assim. Acho legal morar no Rio de Janeiro porque a cidade é menor e todo mundo se conhece. Um fala para a Marisa Monte, outro para o Paralamas. É legal porque trocam informações. Em São Paulo, há uma questão mais cultural e não existe tanta ligação e contato entre os artistas. E acho isso importante porque você acaba aprendendo com outras pessoas e vendo as coisas por outro prisma.