07 de julho de 2026
Ser

Novas solteiras

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Em grande parte dos casos, o aumento do contigente das solteiras pode ser resultado das mudanças culturais, explica a psicóloga clínica e professora acadêmica, Regina Furigo.

Se no passado a mulher dependia do casamento para garantir sua sobrevivência e o sustento dos filhos, hoje o que ela espera de um homem é amor, companheirismo e afeto, aponta a psicóloga. “A mulher de hoje está passando por transformações muito sérias. O fato de descobrir sua capacidade a libertou da submissão. Por outro lado, a deixou mais solitária”, diz.

Isso porque muitos homens, explica a psicóloga, ainda estão assustados com a nova mulher. “Eles estão ‘sem papel’ diante dessa mulher, emergente e mais criteriosa. Para ele, era mais fácil ser o provedor. E parece que ainda não está treinado para lidar com isso”, observa.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres são maioria no País, têm vida média mais elevada que os homens e assumem cada vez mais o comando das famílias. E os números da pesquisa realizada ano passado comprovam: 11.160.635 mulheres, ou 12,9% das 86.223.155 brasileiras, têm sob sua responsabilidade 24,9% dos domicílios do Brasil. Em 1991, apenas 18,1% das residências estavam nesta situação.

Herança cultural

Apesar dos avanços, ter 30 anos e estar solteira ainda é um estigma social, herdado das décadas passadas, explica Furigo. “Antigamente, uma mulher só tinha realmente valor se um homem a escolhesse para ser sua. Hoje não precisamos mais disso e sabemos o quanto valemos. Mas a mentalidade que une mulher/casamento vai demorar muito para ser modificada. Ainda estamos numa estruturação social patriarcal.”.

A advogada Ruth Romano Previdello, 35 anos, afirma que as mulheres não devem absorver esse modelo e apostar em seu potencial. “É uma imposição tão pequena da sociedade e não precisamos absorvê-la.”.

E Previdello vai além: “Considero negativa essa imposição de que as mulheres na faixa dos 30 anos devem estar casadas e ser mãe. Esse pode não ser o objetivo de todas. E as mulheres que não se enquadram nesse perfil?” questiona.

A auxiliar de escritório Ariane Cequini, 29 anos, e a bióloga Daniela Fossato, 31 anos, concordam com a advogada, mas observam que embora o cenário cultural esteja mudando, o modelo do namoro e casamento ainda impera na sociedade.

“As pessoas cobram. Quando encontro colegas com quem estudei no colegial ou ginásio, por exemplo, a primeira pergunta é se estou namorando, casei ou tenho filhos. E brincam: Mas você já tem 30 anos!”, reclama Fossato.

A situação também é vivida por Cequini. “Geralmente, as pessoas perguntam: ‘E aí, está namorando? Quando vai casar? Já está na hora.”

Vivendo o presente

As cobranças da família, amigos ou da sociedade, porém, não exercem grande influência no cotidiano das solteiras. Elas apontam as vantagens e desvantagens de estarem sozinhas.

“Estou fazendo minha segunda faculdade e tenho tempo para mim. Quando era mais nova, minha expectativa em relação ao namoro era diferente. Hoje, consigo viver o presente, sem querer antecipar o futuro”, diz a estudante Thais Vieira, 27 anos.

“Todo mundo, no fundo, quer ter alguém, um companheiro. Por outro lado, sozinha posso fazer o que eu quero, viajar e sair com meus amigos”, pondera Fossato.

Enquanto esperam encontrar uma pessoa especial, as “cinderelas modernas” aproveitam para se cuidar, curtir a família, se dedicar aos amigos e investir na carreira. “Tenho a intenção de namorar, mas apenas quando chegar a hora. É importante viver um dia de cada vez”, pontua Previdello.