Júlio Góes, o Meca, como é conhecido, começou no tênis aos sete anos de idade, no Bauru Tênis Clube (BTC), como pegador de bolas. Desde o primeiro dia de trabalho deu início às primeiras batidas no paredão do clube. Ali começou a trajetória de mais um grande nome do tênis bauruense, que no início da década de 80 chegou a ser o número 1 do Brasil. Hoje, Júlio Góes dá aulas de tênis no Clube Atlético Paulistano. Mas sempre volta a Bauru nas férias ou em alguns finais de semana.
Em entrevista ao JC, Meca falou do início da carreira, das principais conquistas, analisou o atual tênis brasileiro e explicou até o surgimento do apelido “Meca”. A seguir, alguns trechos da entrevista com o jogador:
Jornal da Cidade - Com quantos anos você iniciou no tênis? E onde?
Meca - Comecei no tênis aos sete anos de idade no BTC, como pegador de bolas. No mesmo dia comecei a dar umas batidas no paredão.
JC - Quais eram as dificuldades para jogar e viajar?
Meca - Jogar era bastante difícil, pois não tinha dinheiro nem para comprar raquete, viajávamos só quando o clube fazia intercâmbio com o Pinheiros, de São Paulo, a Recreativa, de Ribeirão Preto, e outras cidades.
JC - Qual foi seu primeiro título importante?
Meca - Meu primeiro título importante foi de campeão brasileiro até 21 anos.
JC - Como você fazia para pagar as despesas das viagens? Tinha patrocínio?
Meca - Para viajar nessa época, não havia patrocinadores, o Cláudio Sacomandi conseguia com o clube alguma ajuda quando começamos a despontar.
JC - Quais foram seus principais títulos?
Meca - Meus títulos que acho mais importantes são: Jogos Regionais e Jogos Abertos, que fui campeão durante vários anos. O de campeão paulista, que também fui várias vezes, e muitos torneios de primeira classe. Depois, comecei a ganhar torneios da ATP, como: Circuito Satélite (7 vezes); Torneios Chalenger (10 vezes), de 50 mil e 75 mil dólares; também fui vice de um ATP tour. Fui campeão mundial da categoria 40 anos, na Áustria, e duas vezes vice em duplas de ATP Tour. Também fui campeão brasileiro de adultos (profissionais).
JC - E o melhor ranking do Brasil e ATP?
Meca - Na ATP, fui 68º em simples do mundo e 69º em duplas. No Brasil, fui número 1 por um bom tempo.
JC - Quem era o adversário que você não gostava de jogar?
Meca - O jogador que eu não gostava de jogar era o gaúcho Ivan Kley, pois devolvia todas as bolas e se eu não tivesse muita paciência e bem de cabeça, não ganhava.
JC - Naquela época você tinha algum ídolo?
Meca – Quando comecei, meu ídolo era Tomas Koch, porque era o melhor do Brasil.
JC - Como surgiu o apelido “Meca”?
Meca - O apelido Meca, surgiu por causa de um supermercado que havia em Bauru e que chamava Júlio Meca. Como meu nome é Júlio, os amigos começaram a me chamar de Meca.
JC - Para ganhar dinheiro, o jogador deve ter no mínimo que ranking?
Meca - Para ganhar dinheiro realmente, acredito que o jogador deva estar no mínimo entre os 100 primeiros.
JC - Qual a diferença do tênis atual e da sua época?
Meca - A diferença é que na minha época o tênis era mais clássico e mais inteligente, hoje é muita força. A chegada das raquetes com material diferente das que usávamos, que eram de madeira, ajudou muito na potência dos jogadores. Hoje, existe raquete feita até com material que se fabrica asas de avião.
JC - Se você estivesse no auge, que ranking acha que teria?
Meca - Acho que se tivesse um treinador, poderia estar entre os 50 do mundo.
JC - Se pudesse ganhar um torneio, qual gostaria de ter ganho?
Meca - Gostaria de ter ganho o Aberto de Roma, porque foi lá que fiz o melhor jogo da minha vida, apesar de ter perdido.
JC - Qual foi sua maior alegria no tênis?
Meca - Alegrias foram muitas, além dos torneios que ganhei, também venci quatro jogadores que estavam entre os 10 melhores do mundo.
JC - E a maior tristeza?
Meca - A maior foi perder a final da Copa Davis 2º Divisão, em Porto Alegre, contra o México. Apesar de jogarmos em casa, tínhamos a torcida praticamente contra nós, pois nosso técnico não havia convocado o gaúcho Marcos Hocevar e eles ficaram bravos. Triste também foi minha derrota para o francês Ianich Noah, que era um dos melhores do mundo, campeão de Rolland Garros, e eu cheguei a ter match point (a um ponto de ganhar o jogo).
JC - E sobre o atual tênis brasileiro, qual a sua opinião?
Meca - Passamos por uma fase boa do Guga e que não foi aproveitada, pois havia muitos cartolas incompetentes e corruptos.
JC - E o Guga tem chance de voltar a jogar bem?
Meca - O Guga tem chance de jogar bem para o resto da vida, mas aquele gênio, número 1 do mundo, nunca mais. As cirurgias no quadril lhe tiraram a mobilidade.
JC - Conte um fato curioso que você passou em algum torneio.
Meca - Foi em Dortmund (Alemanha), o árbitro geral marcou meu jogo de duplas, com meu parceiro Ney Keller, antes do meu jogo de simples, lógico que por engano. Antes de ir para o hotel, chequei o horário do jogo de simples e nem me preocupei com a dupla. Mas nossos adversários eram argentinos, se deram conta do erro, porém, ficaram quietos. Quando chegamos no clube para jogar a simples, já tinha tomado WO, na dupla, resultado: quebramos tudo.
JC - Que conselho você daria aos jovens que estão iniciando no tênis e para aqueles que sonham em ser profissionais?
Meca - Para os sonhadores juvenis, eu aconselho a treinar muito, se possível estudar e jogar nos Estados Unidos.