08 de julho de 2026
Geral

São Benedito ganha traços africanos

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

A imagem de São Benedito fixada na marquise da igreja em sua homenagem na Vila Falcão, em Bauru, está sendo restaurada. Mas não se trata de uma operação comum. Além dos reparos dos danos causados pela ação do tempo, a face da imagem de gesso foi reformulada a pedido do padre da paróquia, Antônio Edson da Mota. Com traços finos e cabelos lisos, ela não representava as feições da descendência africana do santo, padroeiro dos negros e dos cozinheiros. Na próxima semana será apresentado o “novo” São Benedito: ele terá cabelos encaracolados, bochecha e lábios grossos e nariz achatado.

A proposta é alterar a imagem, que tinha traços europeus. De acordo com a Igreja Católica, o monge Benedito, que foi santificado, nasceu na ilha da Sicília, Itália, mas era negro, filho de escravos etíopes. O restaurador Harry Willer Martinez e o padre Antônio contam que a imagem do santo, que mede 2,8 metros de altura, parecia um Santo Antônio pintado de preto. “A estátua tinha feições muito européias, então iremos acentuar os traços negros. Lábios, nariz e face serão refeitos”, explica o vigário.

Os trabalhos de restauração começaram no início do ano. Primeiro, foi retirada a pintura antiga, depois a estátua foi lixada. Devido à ação do tempo, a imagem começou a sofrer com rachaduras. Para consertar esse problema, as fissuras foram preenchidas com gesso e depois, cobertas com massa acrílica. Os próximos passos, agora são impermeabilizar e envernizar a imagem.

As vestes do santo também serão reformuladas. “Como nosso trabalho é artesanal, vamos aplicar uma técnica que deixará a imagem do santo mais vistosa”, conta o restaurador. Para dar ao rosto da imagem características negras, o especialista trabalhou durante uma tarde inteira. “Os cabelos estavam lisos, então deixamos mais encaracolados e curtos. Os lábios e bochechas foram aumentados. Como o nariz estava quase destruído, tive de refaze-lo”, explica Martinez.

São Benedito é representado por um homem carregando um menino aos braços. Esse garoto teria sido ressuscitado pelo então monge Benedito. Porém, a imagem do santo da Igreja de São Benedito já estava sem a criança. O padre Antônio contou que, como a peça era móvel e constantemente era retirada da imagem principal por vândalos, decidiu guardá-la. Agora, após a restauração, a imagem do santo receberá de vez o menino.

Para deixar a imagem mais visível a quem passa na rua e também evitar a ação de vândalos, o “novo” São Benedito será colocado em outro pedestal mais alto. Com isso, o santo ficará quase um metro acima de onde está atualmente. A previsão é que a imagem restaurada esteja pronta na próxima semana. Entre 2004 e 2005, a igreja foi restaurada e recebeu nova pintura.

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Santo dos cozinheiros

Segundo a Igreja Católica, Benedito nasceu na Sicília, Itália, em 1526. Seus pais eram descendentes de escravos vindos da Etiópia. Antes de entrar para a vida religiosa, ele foi pastor de ovelhas e lavrador. Aos 21 anos foi chamado por um monge para viver entre os Irmãos Eremitas de São Francisco de Assis.

No monastério, andava descalço e dormia no chão sem cobertas. Muitas pessoas o procuravam pedindo conselhos, orações e alcançavam muitas curas. Mudou-se para o Convento dos Capuchinhos, onde foi escalado como cozinheiro até que foi eleito pelos seus irmãos como superior do Mosteiro.

Era leigo e analfabeto, mas, segundo a igreja, fez muitas profecias que aconteceram. E sempre que podia, São Benedito apanhava alguns alimentos do convento, escondia-os nas dobras do hábito e os levava aos necessitados. Por conta do ofício do monastério, é considerado padroeiro dos cozinheiros. “Toda boa cozinha tem que ter um São Benedito”, conta padre Antônio.

São Benedito morreu em 4 de abril de 1589 em Palermo, na Itália. O culto a São Benedito é também associado aos padecimentos do negro brasileiro.