09 de julho de 2026
Articulistas

Mania de grandeza


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Atribui-se ao ex-governador da Paraíba João Agripino, o mote da autoglorificação: “Deus estava com mania de grandeza quando me criou”. Já se sabe que Deus teve o mesmo cacoete quando criou Lula. É raro o dia em que deixa de narrar peripécias e mirabolâncias, como quando proclamou que, “desde o dia em que o Brasil foi descoberto”, ninguém cuidou mais dos pobres da Bahia do que ele. O que agora se evidencia é que Deus teve a mesma vontade esquisita quando criou os tucanos, aves de grandes bicos que emprestam plumagem e cores para encorpar e enfeitar os ovíparos políticos dos trópicos brasileiros. Há, porém, uma diferença entre Lula e os tucanos: a precedência no calendário divino. Deus criou os tucanos no quinto dia, para voarem sobre a terra e debaixo do firmamento do céu, enquanto o nosso Adão só veio aparecer no sexto.

Nem bem começou a campanha que se prenuncia como a mais acirrada da contemporaneidade e já vemos estocadas recíprocas das primeiras criaturas criadas pelo Senhor Deus dos Exércitos. E, como se não bastasse a hecatombe eleitoral que se avizinha, a luta já começou no seio da própria família tucana, em que a mania de grandeza faz cátedra. Não é que colocaram para capitanear a escolha da ave que desferirá bicadas em Adão três tucanos que, apesar de ostentarem os maiores bicos da floresta, não representam as instâncias partidárias? Será que Fernando Henrique não percebe que Lula quer vê-lo no meio da campanha? A razão? Fazer uma comparação entre os dois governos. Desfilará um rosário de números para mostrar a excelência de sua administração e apontar resultados mais expressivos que os 8 anos de FHC.

Da parte de Sua Excelência, a divindade presidencial, as grandezas sairão do estoque da afamada bufonaria - “maior programa do mundo, melhor idéia, pela primeira vez na história”. Da floresta tucana, o trinado terá o tom da presunção. Seja quem for o candidato, Serra ou Alckmin, o discurso será a alta qualificação dos governos tucanos. Veremos um duelo em torno de projetos estupendos. O perfil antilula por excelência é José Serra, que beijou a lona em 2002. Dele se pode esperar um relato das experiências bem-sucedidas na vida pública, com ênfase no êxito alcançado como ministro da Saúde de Fernando Henrique, quando patrocinou os remédios genéricos e implementou o programa de combate à aids, de fama internacional.

Lula será favorecido pelo sentimento social de que não valerá trocar seis por meia dúzia. Porém, será atingido pela denúncia: a maior roubalheira da política ocorreu em seu governo. Esse é o ponto nebuloso. Hoje, tudo parece esquecido, como se uma borracha apagasse o passado. Resgatar o mensalão pegará Lula? Ou será que continuará a se desviar pelo alto, pairando acima do PT? Se o candidato for Geraldo Alckmin, o discurso será a boa administração, sob o fundo da imagem de Mário Covas, de quem o governador se considera herdeiro. Mesmo com Alckmin e todo o esforço que faria para exibir um diferencial, será difícil apagar a impressão de que estarão sendo avaliados, na campanha, os ciclos FHC e Lula. Que nome de respeito, de alta credibilidade, asséptico, com visão clara das demandas sociais e programas objetivos para o País poderia ser a terceira via? O jogo está apenas começando, mas a impressão é a de que o último pênalti será batido por Lula, que terá a bola (leia-se também a caneta) na mão. Claro, se escapar da falta cometida no meio do campo do mensalão. A percepção é a de que o País precisar mudar de faixa, ultrapassar esses tempos de grandezas pré-fabricadas. A angústia cresce diante da evidência de que os fantasmas dificilmente fugirão de nossas mentes.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor da USP e consultor político