07 de julho de 2026
Ser

Dom de fênix

Da Redação
| Tempo de leitura: 6 min

“Depois da tempestade vem a bonança.” O velho ditado popular não significa apenas conforto nas horas difíceis. Pelo contrário. Após vivenciar experiências dramáticas e sofrimento, muitas pessoas aprendem a administrar suas emoções e transformar as adversidades em desenvolvimento pessoal. Algumas atingem a maturidade profissional.

É o caso do bauruense Halim Aidar Júnior, 47 anos, proprietário da H.Aidar, empresa de pavimentação. Aos 14 anos, ele enfrentou uma situação extremamente difícil: a perda dos pais, que morreram em um acidente de avião. “Foi a primeira viagem de férias do meu pai. Ele e minha mãe iriam para o Líbano, onde meu pai nasceu, mas acabaram não chegando. Não houve sobreviventes”, lembra.

Depois do ocorrido, Halim e suas duas irmãs mais novas ficaram sob os cuidados dos avós Olmes e Minerva Berriel. Além disso, ele contou com a ajuda de familiares e amigos. “Tive apoio de muitas pessoas. Sou privilegiado nesse sentido”, diz ele.

A responsabilidade bateu em sua porta mais cedo. Aos 16 anos, Halim começou a trabalhar na empresa de pavimentação do pai, existente há mais de 40 anos na cidade. Ficou oito anos atuando em diferentes setores para aprender a estrutura e o funcionamento da empresa.

Durante esse período, Halim contou com a ajuda de um funcionário e grande amigo, Henrique Guimarães Ávila. “Ele foi como um segundo pai’”, revela o empresário. “Quando cheguei no escritório, o sr. Ávila disse que eu tinha duas opções: sentar na sala do dono da empresa e administrar a empresa ou trabalhar como funcionário para conhecer todos os seus departamentos”, revela.

Halim aceitou o desafio e atuou como trabalhador braçal, na oficina, na usina, como office boy, entre outras funções. “Foi difícil, mas aprendi”, diz ele, que hoje administra um quadro de aproximadamente 50 funcionários.

A rapidez que marcou o amadurecimento profissional de Halim também acompanhou sua vida pessoal. Aos 24 anos, assumiu definitivamente o lugar do pai na empresa. No ano seguinte, se casou com a designer Gisele Aidar Simão, com quem tem dois filhos: Halim Aidar Neto, 23 anos, e Fernanda Aidar, 20 anos.

“Foi a melhor coisa que fiz na vida. Me casei com a pessoa certa e, se hoje estou bem-sucedido, devo muito a minha esposa, que é uma companheira maravilhosa”, diz o empresário.

Otimista e sempre com um sorriso no rosto, Halim é exemplo de que é possível transformar qualquer dificuldade em aprendizado. “Lógico que eu gostaria que nada disso tivesse acontecido. Gostaria de ter aprendido de uma maneira mais leve e fácil, mas isso acabou me mostrando um caminho que eu não sei se conseguiria conhecer se meus pais estivessem vivos. Numa situação como essa, nós acabamos amadurecendo antes do tempo e assumindo mais responsabilidades”, diz ele.

Para Halim, uma das maiores lições do sofrimento é a de que se deve viver cada dia como se fosse o único. “Tento passar isso para meus filhos e acho muito importante”, diz.

Reestruturação interior

“Todo episódio da vida tem dois lados: o bom e o ruim. Só é preciso saber dosar as coisas, curtir a dor, mastigar as lágrimas, ir até o fim do poço para depois tomar um banho de luz, se renovar e emergir. Essa capacidade de fênix todo ser humano tem. Só é preciso achar o caminho”, diz a advogada e escritora Josefina de Campos Fraga, 60 anos, que passou por experiência semelhante à de Halim Júnior.

No início dos anos 90, ela perdeu sua filha em um acidente aéreo. E 45 dias depois, perdeu o companheiro, que foi vítima de atropelamento. “Nos primeiros meses é uma situação desesperadora, principalmente porque a morte da minha filha aconteceu muito próxima à do meu esposo.” “Perder um filho é a pior perda que um ser humano pode passar. De forma filosófica, o filho é passaporte para sua imortalidade. É através dele que nós nos perpetuamos. A partir do momento que há essa inversão da ordem natural das coisas, acontece uma mudança séria na estrutura interior, na forma de ver a vida”, diz Josefina, que na época era professora e estava no final da carreira.

Além de conviver com a dor, durante um ano ela passou a refletir sobre sua vida. “Em nenhum momento eu tive revolta porque Deus tem uma razão para tudo e esperava que eu desse a Ele uma resposta positiva.” Nesse processo de reestruturação interior, ela encontrou as respostas. “Descobri que, embora eu tivesse passado pela dor e sofrimento, poderia produzir, retomar minha vida e não perder a alegria de viver”, diz.

Josefina e seu outro filho, na época com 18 anos, se mudaram para outra casa. Em seguida, ela decidiu arrumar um novo emprego. “No começo foi difícil porque eu já era uma mulher de 45 anos de idade. Era no começo dos anos 90 e eu não tinha muitos conhecimentos de informática e língua estrangeira.”

Foi então que ela “investiu” em um grande talento: o dom da escrita. “Essa facilidade me ajudou, abriu espaço no mercado de trabalho”, diz Josefina, que começou a trabalhar na Pró-Reitoria acadêmica da Universidade do Sagrado Coração (USC).

Além disso, Josefina aprimorou seu dom literário. “Tinha meus momentos de neura e insônia, mas ao invés de tomar comprimidos para dormir, comecei a escrever. Os primeiros textos, crônicas e poesias eram todos dedicados à minha filha. Um dia, minha irmã me sugeriu para que eu levasse meus textos para alguém da área e os publicasse.”. Seu primeiro livro, “Ela era como o vento”, foi lançado no final dos anos 90. No ano seguinte, publicou “Olhar antigo”. Em 1996, lançou “Redemoinhos na areia”.

Ao mesmo tempo no qual voltava ao mercado de trabalho e se dedicava à literatura, Josefina voltou a estudar. Em 1994, formou-se em direito pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), onde conheceu seu atual esposo. Anos mais tarde, foi nomeada secretária de Cultura. Fez duas pós-graduações em direito e hoje trabalha no setor jurídico da USC.

“Tudo isso foi muito importante na minha recuperação. “Me sinto bastante realizada, olho para trás e acho que nesses anos que vieram depois das minhas perdas, eu produzi e cresci intelectualmente muito mais do que naqueles 45 anos que ficaram para trás”, avalia a escritora.

Para Josefina, a tempestade causada pelo sofrimento se transformou em bonança. “Com o passar dos anos, aprendi a conviver com a dor. O terror da perda foi tomando o enfoque da saudade”, diz.

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Administrando sentimentos

O amadurecimento pessoal e profissional causado pelo sofrimento é fruto de um grande trabalho de reestruturação interior, explica Rosana Amador Ramos, psicóloga clínica e organizacional.

“As dores levam a pessoa a trabalhar mais a razão do que a emoção. “Trabalhar a morte é muito difícil, nós não estamos acostumados a lidar com perdas e sim com ganhos. Mas a partir do momento em que a pessoa trabalha o luto, ela vai conseguir trabalhar suas emoções e administrar sua vida”, aponta Rosana.

Não fazer planos a longo prazo e viver cada dia intensamente é uma alternativa para trabalhar melhor os sentimentos, diz Rosana.

“Os seres humanos passam por fases, mas sempre depois da tempestade vem a calmaria. A vida é um eterno viver. Precisamos tirar experiência e amadurecimento das fases boas e aprender a administrar os sentimentos nas fases ruins”, observa a psicóloga.

Cristiane Goto