"Eu apenas disse e ratifico aqui que esse tipo de alerta, quando dito por pessoas não autorizadas, podem (sic!) sim, senhor Ortolan, provocar uma corrida desnecessária aos postos de combustíveis e, se o produto está escasseando, com certeza vai faltar mesmo” - sic - (Tribuna do Leitor, trecho da carta “Combustíveis”, enviada pelo senhor José Ramos em 5/3, em resposta à minha correspondência de 2/3).
Senhor José Ramos, bom dia! Foi exatamente isso que o senhor escreveu. Permita-me, entretanto, respeitosamente, alguns comentários:
1 – Corrida em busca de álcool carburante não houve até agora e, com certeza, não haverá, já que se principia, antecipadamente, a colheita da nova safra. Mais que “notas” indevidas e “esse tipo de alerta” a que sua senhoria se refere, a sua missiva, sim, pode assustar, embora o senhor não seja (até onde eu saiba, posto que não o conheço) alguma “autoridade capacitada” para tanto (aí sim assustaria mesmo...). Diga-me, senhor Ramos, por acaso o senhor já encontrou alguma fila de veículos aguardando por longos minutos pelo abastecimento de álcool? Daquelas filas freqüentes que só iam acontecer um pouco antes da bancarrota do “Proálcool”? Entretanto, se o senhor dissesse que o preço do álcool está pela hora da morte, eu concordaria. As razões desse sobrepreço explico-lhe mais adiante...
2 – As “autoridades capacitadas” a que sua senhoria tanto se refere (da ANP) são as menos capacitadas para “alertar a população” (aliás, menos capacitadas como “tudo isso que está aí”) e é bem por isso que não se dirigiram até agora à distinta platéia (aquilo é um verdadeiro circo) por meio de qualquer “nota” de alerta! A Agência Nacional de Petróleo (ANP) sabe, perfeitamente, que existe álcool hidratado suficiente na mão de atravessadores e distribuidoras clandestinas, pelo menos até que o álcool novo chegue ao mercado.
3 – O álcool hidratado que está nas mãos dos atravessadores (e bem por isso é que a Shell, a Texaco, a Ipiranga, etc, estão com seus estoques reduzidos) somente está em mãos erradas porque o senhor Antonio Palocci, ministro da Fazenda, não liberou, de setembro de 2005 a março de 2006, o dinheiro referente às “warrants” (R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão) para financiar os usineiros na retenção de seus estoques reguladores nas próprias usinas, durante a entressafra 2005/2006. Carentes de dinheiro para prepararem-se para a nova safra que agora se inicia, não lhes restou (aos usineiros) alternativa senão vender, pelo preço normal do mercado de então, seus estoques no mercado paralelo que, saiba sua senhoria, existe e é muito dinâmico. Como não há tabelamento de preços para combustíveis, pois que o mercado é livre, imediatamente iniciou-se a batalha da elevação do preço do álcool carburante. Tanto é assim que o álcool anidro (sem adição de água) está mais barato que seu primo, o hidratado.
4 – Por que o ministro Palocci não liberou a quantia referente às “warrants”? Segundo fontes extra-oficiais para, com mais essa importância nada desprezível, somada a tantas outras, também não liberadas, obter um superavit primário maior e quitar dívidas em dólares junto à banca internacional e ao FMI!
5 – O senhor esqueceu-se de, referindo-se ao dr. Mário Cândido e a “tudo isso” (sic) que escrevi, de comentar o arrazoado da missiva do usineiro senhor Zancaner que garantia, há dois meses, que o preço do álcool hidratado iria cair e voltar ao normal! Na verdade, de lá para cá, só subiu: de R$ 1,29 para R$ 2,00 por litro. Por que será, não?
Dizem as más línguas que o ministro da Fazenda, para castigar os usineiros(?), promete, novamente, não proceder, na próxima entressafra, à liberação das “warrants” novamente... Bingo: “repeteco” disso tudo que está aí! Estará passando recibo de que, efetivamente, nada entendeu...
6 – Se o senhor não entendeu, “sinceramente, o motivo de (eu) ter escrito tudo isso para a Tribuna do Leitor do JC” (sic) em resposta à sua primeira missiva, digo-lhe que muito apreciei a sua réplica, porque tive, assim, a oportunidade de dirimir suas dúvidas, se é que tanto consegui.
Espero que o assunto esteja esgotado com meus comentários e que não venham estes a “provocar uma corrida desnecessária aos postos de combustíveis” porque “o produto” não “está escasseando” e, “com certeza”, não “vai faltar mesmo”! Como fui o primeiro a usar o termo jocoso no fecho de minha carta anterior, repito-o agora: “ora bolas”!
João Guilherme Ortolan