Para não fechar suas portas, muitas oficinas mecânicas estão tendo que se submeter às exigências das empresas administradoras de seguro, denuncia Angelo Coelho, presidente do Sindicato da Indústria de Funilaria e Pintura do Estado de São Paulo (Sindifupi). Ele também reclama que as seguradoras estão impondo às funilarias o preço dos serviços e o uso de peças de segunda linha no lugar das originais. Ontem à tarde, ele iniciou uma série de visitas às oficinas de Bauru, orientando os empresários a não aceitarem imposições e procurar o sindicato quando isso acontecer. “Vamos incentivar o reparador a não cometer crime contra o consumidor”, explica Coelho.
Ao encaminhar um veículo que está no seguro a uma oficina “referenciada”, ou seja, que possui algum tipo de acordo com a seguradora, o consumidor espera serviço de qualidade. Para que o cliente troque sua oficina de confiança por uma “credenciada”, as seguradoras oferecem desde descontos na franquia até carros reservas, segundo ele.
De acordo com Coelho, o consumidor deve intervir nesta hora, exigindo que o carro seja levado ao estabelecimento que ele deseja. “Se a empresa alegar que essa oficina não possui acordo comercial com a seguradora, significa que o dono da funilaria tentou defender os interesses do consumidor e está sendo evitado”, conta o sindicalista.
Alcemir Queiroz da Silva, dono de funilaria há oito anos, conta que, por não se submeter às exigências das seguradoras, está sendo boicotado. “Eu me coloquei contra essa atividade. Hoje estou sendo rejeitado pelas empresas de seguro. As oficinas credenciadas não têm culpa, pois estão sendo coagidas a trabalhar com essas margens de lucro e peças de segunda linha para poder ter algum lucro e se manter”, explica.
Silva calcula que o prejuízo, ao seguir o orçamento da seguradora, pode chegar a 30%. O cliente que opta pela sua oficina de confiança também passa por transtornos. “Primeiro tentaram me empurrar para uma credenciada e eu não aceitei. Por optar pelo estabelecimento que estou acostumado, a seguradora quer que eu assine um termo assumindo a minha escolha”, conta o corretor Rober Queiroz.
O sindicato denuncia que ao credenciar as oficinas e encaminhar seus clientes somente a elas, as companhias de seguro estariam criando uma reserva de mercado, o que é ilegal. “Em Bauru existem cerca de 60 funilarias. Apenas seis são referenciadas. Em todo o Brasil são 367 mil oficinas e apenas 500 credenciadas. Mas elas são responsáveis por 52% (dos consertos) de todos os sinistros do País”, calcula Coelho.
Com o carro na oficina, a seguradora manda seu perito que, em muitas vezes, apresenta um orçamento muito abaixo do valor da mão-de-obra, argumenta. Segundo o sindicato, para serviços que custariam R$ 60,00 a hora, a companhia pagaria apenas R$ 14,00. Para não perder o cliente, o dono da funilaria, muitas vezes, se submete ao preço.
De acordo com o sindicato, algumas empresas de seguro ainda estimulam a utilização de peças de segunda linha, as que não são originais da fábrica. Nesses casos, a variação de preço é ainda maior. Um farol original de carro importado, por exemplo, é orçado em R$ 6 mil, enquanto a versão de segunda linha sai até por R$1,2 mil.
Em São Paulo, o sindicato oferece serviço gratuito de verificação do carro após ele retornar da oficina. “Em quatro meses de funcionamento, nenhum veículo foi aprovado. Todos estavam com peças de segunda linha”, aponta Coelho. A orientação do dirigente é cautela. “Leve seu carro somente à sua oficina de confiança. Solicite cópia do orçamento feito pela seguradora e depois verifique a procedência das peças”, aconselha.
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Concessionárias
Rodrigo Biondi, gerente de uma concessionária de veículos de Bauru, enfatiza que sua empresa não fechou acordo com nenhuma seguradora. “A primeira reação de um motorista que bate o veículo é procurar a sua concessionária. O nosso orçamento possui um certo padrão de qualidade, e como não negociamos os valores de peças e mão-de-obra, a seguradora pede que o cliente procure uma credenciada”, explica. Para garantir que a concessionária faça o serviço, o cliente tem que brigar, conta Biondi.
“Os veículos que vêm aqui recebem peças garantidas”, diz. Sobre a denúncia do sindicato, o gerente conta que não negocia com a seguradora. “A gente nem dá espaço para negociação sobre peças. Mas em alguns lugares, eles podem pressionar. Nesses casos, os clientes nem ficam sabendo. Eles entregam o carro batido e pegam pronto”, completa.