A despeito de minha condição feminina, sou mãe, esposa, dona de casa, profissional, enfim, uma mulher como tantas outras e, exatamente por este motivo, gostaria muito de compreender a necessidade da existência de uma data que celebre o Dia Internacional da Mulher.
Não quero parecer uma feminista intransigente ou, ainda, dar a impressão de não acreditar que seja importante a presença feminina na sociedade. Longe disto. Minha indignação – se é que este seria o sentimento mais adequado para expressar o que se passa em minh’alma - reside no fato de crer, piamente, na força da mulher. Não pretendo, tampouco, dedicar-me a vangloriar as conquistas do chamado “sexo frágil” no último século, nem endeusar aquelas que têm atingido posição de destaque mundial. Quero expor meus pensamentos a respeito da mulher comum, que vence muitas batalhas a cada dia, como eu, você e milhões espalhadas por este imenso planeta.
A meu ver seria mais justo, honesto e correto sermos tratadas com a dignidade e o respeito merecidos por todo e qualquer ser humano. De que nos serve um único dia, dos 365 existentes no ano, para sermos homenageadas, paparicadas, recebermos flores, ouvirmos galanteios lisonjeiros se, num breve e rápido olhar pelo mundo, deparamo-nos com tantas crueldades e injustiças praticadas contra nós? Paremos para olhar as mulheres africanas, nossas irmãs, que sofrem caladas, num estoicismo comovente, ao verem seus rebentos perecerem, às centenas, pela fome, pela miséria, pelas doenças, pelas guerras... são humilhadas, maltratadas, violentadas e o mundo assiste a este espetáculo bizarro calado, impassível, como se não tivéssemos, todos nós, algo a ver com isto.
Qual a razão de colhermos, em pleno século 21, os restos do ranço machista que ainda permeia sociedades ocidentais e orientais, ratificando comportamentos indesejados tais como a violência doméstica, as agressões e abusos sexuais, a mutilação de nossos corpos, os salários menores quando ocupamos os mesmos cargos que os homens, a pecha de sermos vulgares se namoramos demais, enquanto os homens disto se vangloriam como prova de sua masculinidade, a proibição de freqüentarmos certos lugares ou ocuparmos alguns postos religiosos...
Nós, que geramos a vida, que sustentamos famílias, que somos força de trabalho produtivo e criativo, que enchemos os lares de graça e magia, que fomos e somos decantadas em verso e prosa, queremos, realmente, comemorar; não porque criaram um dia especial para nós, mas porque conseguimos quebrar as barreiras sociais e nos colocar em pé de igualdade verdadeira com os homens e, assim, caminharmos lado a lado na construção de um mundo melhor, que dispense datas comemorativas, sejam para homens ou mulheres.
A autora, Isabel Cristina Miziara, é professora em Bauru