07 de julho de 2026
Geral

Sempre é tempo de mudar

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

Não perder tempo e ser o melhor. No mundo de hoje, estas mensagens são passadas constantemente para jovens, adultos e até mesmo crianças. “Vivemos num mundo extremamente competitivo, que passa uma sensação de urgência em tudo que se faz”, afirma a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin.

O vestibular acabou se transformando num dos rituais desta sociedade, em que ser o primeiro, estar à frente, se destacar, são sinônimos de felicidade. O adolescente é pressionado para que obtenha sucesso na passagem deste ritual, obviamente, na primeira tentativa.

Aqueles que não conseguem, invariavelmente são invadidos por um sentimento de fracasso. Vanin afirma que os sentimentos de frustração e desânimo são legítimos nesta situação. Porém, a reação mais saudável, segundo ela, é vivenciar este momento, não negá-lo, mas superá-lo e não se entregar.

“É importante que o jovem não se desvalorize nem se sinta incompetente”, alerta a psicóloga. “A situação do vestibular é muito complexa e muitos fatores intervêm no resultado; não é só o conhecimento que conta, mas também circunstâncias do momento, como a capacidade de se manter tranqüilo na hora da prova, e até o fator sorte”.

Desvencilhar-se das engrenagens de uma sociedade que convoca, diariamente, a todos para que dêem o sangue e a alma por um objetivo, o mais cedo possível, não é tarefa simples. No entanto, familiares, escola e o próprio adolescente devem estar alertas para o fato de que a pressão excessiva e o clima de competição em torno do vestibular, de acordo com Vanin, influenciam negativamente no resultado.

O psicanalista e educador autor de diversos livros, Rubem Alves, em seu texto “Muito cedo para decidir” alerta sobre a crueldade de obrigar adolescentes de 16, 17, 18 anos a tomarem uma decisão, como a escolha da profissão, para o resto da vida.

A dor dos adolescentes, segundo o psicanalista em seu texto, está no fato de não terem condições de saber o que amam, a ponto de querer fazê-lo durante toda a vida. No entanto, são obrigados a tomar uma decisão, mesmo sem saber.

“Precisamos diminuir o ritmo e a ansiedade”, afirma Vanin. “Concordo que muitas vezes ao terminar o colegial o jovem pode não estar ainda preparado para escolher o que vai fazer da vida. Isso é muito individual, varia de pessoa para pessoa. Alguns amadurecem mais cedo do que outros, por isso precisamos respeitar o ritmo de cada um”.

Para aqueles que não passaram no vestibular e estão voltando para as salas de aula dos cursinhos, esta pode ser uma oportunidade de rever algumas decisões. “Acho que sempre é tempo de se fazer outra escolha. As pessoas podem mudar, descobrir outros interesses, e se isso acontece é melhor fazer outra escolha do que insistir em fazer algo de que não se gosta”, afirma Vanin.

Quanto a passar no vestibular já na primeira ou segunda tentativa, Rubem Alves, ainda em seu texto “Muito cedo para decidir”, afirma: “Dá uma aflição danada ver os outros começando a corrida, enquanto a gente fica para trás. Mas a vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada”.