09 de julho de 2026
Regional

Sapato de couro de peixe já tem coleção em Jaú

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Jaú - Uma jaqueta de couro vendida por cerca de R$ 5 mil leva a imaginar que seus detalhes possam ser bordados em fios de ouro ou coisa semelhante. O ouro em questão não é o metal precioso, mas sim o couro de peixe. Precisamente retirado da carcaça de tilápias. Um calçado feminino de couro de peixe custa em média R$ 200,00 a R$ 300,00 vendido na loja.

Os preços salgados, apesar do peixe vir de água doce, indicam consumidores elitizados. Para o agrônomo Nilton Grizzo, 49 anos, que vende couro de peixe para fábrica de calçado em Jaú (47 quilômetros de Bauru), tem quem pague valores exorbitantes. Grizzo avalia que se trata de consumidores que desejam produtos diferentes.

Ele passou a produzir pele de couro há pouco mais de dois anos, depois de acumular muito conhecimento de como atingir uma qualidade especial no processo de curtimento da pele do peixe transformada em couro próprio para roupas, bolsas, calçados e acessórios.

Quem acompanha os relatos de como uma uva se transforma em um vinho excepcional não imagina o trabalho que dá transformar peixe em sapato. Grizzo, é um produtor de peixes. Aproveitou a febre dos pesque-pague para alicerçar seu negócio. Depois, resolveu montar o seu próprio pesque-pague em Jaú, de onde surgiu dois outros excelentes negócios.

Vender o filé limpo é muito lucrativo, melhor ainda se o cliente puder passar um dia agradável pescando e depois saborear pratos variados à base de peixe. Porém, o que fazer com os restos? A carcaça passou a ser um problema. Grizzo percebeu que a pele poderia virar couro. A carcaça tem potencial para virar uma farinha. Segundo o agrônomo, mesmo as fezes dos peixes acumulada no fundo dos tanques viram um adubo orgânico de ótima qualidade.

Mas Grizzo investiu mesmo foi na “garimpagem” de uma maneira de tratar o couro para a indústria calçadista. Sua produção hoje é de 50 metros quadrados de couro confeccionados de forma artesanal por mês. Toda produção tem comprador certo.

As coisas começaram a sair do zero após uma troca de experiências com um grupo de pesquisa da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Entre muita informação colhida, conheceu a receita divulgada pela unidade do Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) da cidade de Franca. De lá vieram soluções boas aplicadas na técnica usada atualmente por Grizzo.

O agrônomo comenta que ninguém tem muita experiência na produção de couro de peixe em São Paulo, diferente da realidade do Paraná, onde a produção alcançou um patamar avançado.

O agrônomo de Jaú conta que conseguiu atingir a maciez do couro com a testura de veludo. Porém, a fábrica jauense prefere a rigidez de cartonagem. Detalhes do tratamento da pele de tilápia -processo de curtume - Grizzo não revela. Ele conta que tem que mexer muito e sem parar a pele do peixe mergulhada em produtos específicos. Entretanto, o agrônomo descobriu que a qualidade se consegue na hora de limpar e retirar a pele do peixe. Conforme o agrônomo, tem que se fazer um recorte cuidadoso com a pele ainda na carcaça. Tanto esforço compensa por se conseguir um aproveitamento maior. Daí, uma a uma as peles são limpas manualmente e depois passam por um processo de desidratação. Como tudo é manual, o que eleva a jaqueta a um preço de R$ 5 mil, segundo Grizzo, é o custo da mão-de-obra. Ele diz que vende uma pele de couro de peixe a R$ 2,00, tendo um custo de R$ 1,50 – lucro de R$ 0,50.

A jaqueta exposta por Grizzo consumiu 200 peles, o equivalente a dois metros quadrados.

O custo aproximado para o lojista é de R$ 1 mil que revende ao consumidor final a R$ 3 mil. Um par de sapato feminino consome seis metros de couro de peixe. Com 5 mil peles se consegue um rendimento de 50 metros quadrados, com o qual se fabrica cerca de 850 pares de calçados femininos. Grizzo explica que vende o metro quadrado de couro de peixe para a fábrica por cerca de R$ 250,00.

Segundo o agrônomo, a mesma metragem do couro de boi está sendo comercializada entre R$ 40,00 a R$ 50,00; o metro quadrado da pele do avestruz sairia por R$ 300,00; e a pele da cobra píton não é vendida por menos de R$ 850,00.

Ele acrescenta que, hoje, a mão-de-obra é o componente preponderante para os preços altos do couro de peixe. Mesmo com alguns percalços, Grizzo ressalta que pretende aumentar a produção partindo para uma fase de mecanização das etapas de curtume.