Um fabricante de sabonetes aproximou-se de um padre e disse: “Sinto muito, mas o cristianismo fracassou até agora. Apesar de dois mil anos de pregação, o mundo continua o mesmo. O mal continua a existir e ainda encontramos em todos os lugares pessoas ruins!” Neste mesmo instante, o padre viu uma criança toda suja brincando no lixo que estava na rua e afirmou: “Na verdade, o sabonete é um fracasso. Apesar dele existir há tanto tempo continuamos a ter sujeira no mundo e encontrar pessoas sujas”. “Mas, o sabonete”, retrucou o fabricante, “é útil, se ele for usado”. O padre sorrindo respondeu: “O cristianismo também!”
Para os cristãos, Jesus Cristo é o paradigma, em outras palavras, o modelo a ser seguido. O problema é que sempre que temos a chance de nos aproximar de uma figura como Jesus, a tendência é a de nos afastarmos. Isso acontece, na verdade, porque Ele simboliza ao mesmo tempo a vida e a morte, ou seja, uma radical transformação. Assumir Jesus como paradigma significa viver uma metamorfose. Somente os corajosos conseguem, verdadeiramente, se aproximar de Jesus e levá-lo a sério. Essa aproximação é o mesmo que estar pronto para se atirar em um abismo.
Não estou falando em um fanatismo cego, mas em um caminho de consciência da realidade e de comprometimento com ela. Portanto, uma mudança que sempre traz problemas e conflitos. Por isso, o ser humano se mantém distante de Jesus ou tenta reinterpretá-lo a seu modo para que ele se torne mais digestível, menos exigente, mais acomodado ao sistema no qual se vive. O mais interessante nessa questão é que tentando fugir de Jesus, o cristão está fugindo de sua própria humanidade. Afinal, nós somos a semente e Jesus é a árvore. Jesus é o espelho através do qual podemos compreender nossa verdadeira face.
O segundo problema no que diz respeito ao relacionamento do cristão com Jesus Cristo é que, ao aproximar-se Dele não encontramos uma cartilha de como ser feliz. Um ser como Jesus não oferece uma teoria, um conhecimento filosófico. Sem dúvida alguma, podemos retirar dos Evangelhos e principalmente das cartas de Paulo, uma teologia e uma filosofia. Porém, conhecer Jesus não é o mesmo que conhecer Confúcio, Sócrates ou Nietzsche. Jesus oferece algo além de um raciocínio lógico, Ele oferece o seu próprio “ser”.
O conhecimento filosófico e científico podemos adquirir nas bibliotecas, nos livros, na pesquisa. Com Jesus estamos em outro nível, o que possuímos é o seu próprio ser, a sua vida. Em outras palavras, Jesus não é um homem sábio, Ele é a própria sabedoria. Portanto, se desejo compreender Jesus, devo estar atento ao conjunto de todo o seu ser: “atos e palavras”. Aliás, suas palavras são sinais destes atos. Na linguagem de Habermas, podemos dizer que Jesus possui um “agir comunicativo”, ou seja, um agir que provoca uma validade social e modifica as relações em todas as suas dimensões, não somente individual, como também inter-pessoal e social. Não é por menos que o agir de Jesus significou uma provocação, um verdadeiro perigo às instituições religiosas e políticas da época levando-o à crucificação. Portanto, ninguém segue Jesus simplesmente através de discursos e raciocínios lógicos, mas com o conjunto de suas palavras e principalmente seus atos.
Por fim, a terceira dificuldade do ser humano com Jesus Cristo é em relação ao tempo. Viver com Jesus é viver em um certo desconforto. Afinal, Jesus não permite a conveniência dos sonhos. Isso mesmo, sonhos são projeções para o futuro e, por isso, precisa de tempo. Jesus não lhe dá tempo, e muito menos futuro. O ser humano, por sua vez, adora viver de sonhos. Os sonhos são ótimos, mas eles precisam do amanhã e o amanhã do tempo. Nós vivemos no tempo e alimentamos com ele nosso comodismo burguês. Um dia seremos isso, um dia faremos aquilo...e a vida continua a mesma. Jesus vive fora do tempo. Para Jesus você tem que ser no agora. O sonho deve ser realidade no presente, caso contrario, você estará se enganando. Jesus não nos permite ter tempo. Ele é radical, você precisa ser neste momento.
Se nós costumamos dizer que no futuro realizaremos nossos sonhos, o futuro sempre nos dá tempo. Ficamos tranqüilos, como se fossemos viver eternamente. Jesus nos abre os olhos. Não há tempo, o tempo é uma criação humana. “O Reino dos Céus está próximo”, diz Jesus (Mc 1, 15). A proximidade aqui não é temporal, mas geográfica. O Reino dos Céus está muito perto de você, basta dar o primeiro passo. Portanto, se você quiser, tem que ser agora. O tempo só servirá para você adiar novamente aquilo que deve fazer. Justamente por causa do adiamento que continuamos ser como somos, em outras palavras, aquilo que não gostaríamos de ser. Se nos vemos frente a um perigo, reagimos rapidamente para nos salvar da situação perigosa. Jesus procura nos alertar que nos encontramos constantemente em uma situação de perigo: o perigo da mediocridade, o perigo do desperdício da vida.