07 de julho de 2026
Gastronomia

Frutas

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 8 min

Ignez, minha mãe, sempre diz que passaria numa boa comendo apenas frutas. Não pode ver um caminhão vendendo caqui ou pêssego que me faz parar. Outro fanático por elas é meu marido, que comprou um pé de gabiroba na feira, já perdeu várias camisetas de tanto sorver polpas de caju e insiste em manter no quintal uma goiabeira bichada.

Gosta tanto do pseudofruto da família Anacardiaceae que tem 70 gêneros e 875 espécies e que adora clima tropical bem temperado que trouxe, em nossa última viagem ao Maranhão, uma infinidade de sementes de caju para plantar no terreno ao lado de casa.

E está feliz com o desenvolvimento das plantinhas, que daqui a anos luz estarão produzindo... Eu sou chegadíssima numa laranja-lima ou do céu, como é chamada lá no Rio Grande do Sul, terra das minhas amigas Marta e Sílvia.

Como a época é de “vacas gordas” para quem ama frutas, - os preços estão excelentes - fui fuçar numa produção literária digna de figurar na estante de todos: “Frutas – Sabor à Primeira Dentada”, da Editora Senac, para saber mais sobre elas.

É um livro e tanto. Pelo conteúdo a cargo de Gil Felippe e pelas ilustrações de Maria Cecília Tomasi, da Aquarelas. Satisfaz tanto o especialista exigente quanto o leigo que está à procura de informação. Com estilo leve e bem humorado, Gil descreve como as frutas foram sendo adaptadas aos usos e costumes de cada sociedade ou região, complementados por outros da tradição popular, do folclore, da antropologia e da etnologia.

Detalha o que é e o que não é fruta, as característica de cada uma e ensina receitas tradicionais de maneira clara.

E acrescenta as novidades “importadas” que vêm aparecendo nos grandes supermercados como curuba, lichia, tomate arbóreo e mangostão. E ao mesmo tempo ressalta delícias como jaca, murici e o jenipapo, raras nos meios urbanos, mas tão presentes no Brasil profundo.

Através dele, fiquei sabendo que todas as laranjas doces são variedades de uma só espécie. A palavra tem origem na Índia como narayan, que significa “perfume dentro”. Os árabes usavam a palavra persa narandj. Foi a laranja, no século 14, que interrompeu o desprezo medieval pelas frutas.

As laranjas doces eram trazidas para a Europa. Da Índia e da China, pelos portugueses. A primeira laranjeira chinesa chegou a Portugal em 1630 e lá floresceu.

Passou a ser cultivada e a ter muito mais sucesso que a laranja-azeda, que era a única da Europa. É rica em vitamina C: 100g da fruta têm 53 mg desta vitamina, logo depois chegou ao Brasil para minha alegria, em particular.

Caqui com creme inglês

1 caqui

creme:

3 gemas de ovo

60 g de açúcar

240 ml de leite

2 ml de baunilha

Bater muito bem as gemas com um 1/3 de açúcar. Misturar o leite com o restante do açúcar e levar à fervura. Deixar esfriar um pouco. Despejar o leite ainda quente sobre as gemas batidas, acrescentar a baunilha, misturando continuamente. Colocar tudo na panela e levar ao fogo brando, mexendo continuamente até engrossar. De modo algum deixar a mistura ferver.

Corte o caqui bem gelado em quatro pedaços e remova a casca e as sementes. Coloque o creme inglês, frio, em prato de sobremesa branco e coloque os quatro pedaços de caqui na forma de cruz.

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Mamão vitrificado

1 mamão grande, quase maduro (ou 3 pedaços)

15 g de cal virgem

Açúcar em calda (2 copos para 1 copo de água)

3 cravos-da-índia

1 pau de canela

Descascar o mamão, tirar as sementes e cortá-lo em pedaços grandes (3 cm de comprimento). Misturar três litros de água com a cal virgem. Cobrir os pedaços de mamão com a mistura de cal, mexendo de vez em quando, durante duas horas. Retirar da cal e lavar bem em água corrente.

Manter em água. Furar com um garfo todos os pedaços de mamão e jogar a água fora. Em um tacho de cobre, colocar os pedaços de mamão e cobri-los com calda suficiente.

Acrescentar o cravo-da-índia e o pedaço de canela. Ferver até reduzir um pouco a calda. Colocar em uma vasilha e deixar por dois ou três dias. Ferver de novo e retirar qualquer espuma que se formar.

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Compota de melancia

1 kg de melancia sem casca e sem sementes, em pedaços

300 g de açúcar cristal

Noz-moscada a gosto

Colocar em um tacho de cobre os pedaços de melancia e o açúcar. Levar ao fogo até reduzir bem o líquido. Juntar a noz-moscada. Deixar apurar.

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Sorvete de manga

300 mg de açúcar

700 ml de água

10 g de gelatina em pó, sem cor e sem sabor, amolecida em um pouco de água fria

500 g de polpa de manga batida no liqüidificador

Fazer uma calda do açúcar e da água. Tirar do fogo, deixar esfriar um pouco e acrescentar a gelatina amolecida. Misturar tudo muito bem. Deixar esfriar. Acrescentar a polpa batida da manga, mexer bem e levar ao congelador até começar a engrossar. Retirar do congelador, bater em batedeira elétrica e colocar no congelador. Repetir esta operação duas ou três vezes.

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Geléia de pimenta e morango

10 morangos grandes

2 pimentas-dedo-de-moça

240 g de açúcar

½ limão-taiti

Tirar toda a parte interna da pimenta-dedo-de-moça, deixando só a parede do fruto. Cortar em pedacinhos. Levar ao fogo uma panela com os morangos picados, a pimenta-dedo-de-moça, o açúcar e o caldo do limão. Juntar um pouco de água. Deixar ferver. Mexer com uma colher de pau, até dar ponto de geléia.

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Geléia de tomate

500 g de tomates maduros inteiros (com pele e sementes)

250 g de açúcar

Raspas de 1 limão-taiti

1 colher de chá de gengibre seco, em pó

Cozinhar, sem água, os tomates partidos em pedaços. Ássar tudo na peneira. Colocar o açúcar, as raspas da casca do limão-taiti, o gengibre e deixar apurar

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Torta de pêra

Massa:

750 g de farinha de trigo

200 g de manteiga

150 g de açúcar

Gotas de baunilha a gosto

1 pitada de sal

½ limão-taiti

1 ovo

Colocar a farinha de trigo em uma tigela e no centro juntar a manteiga cortada em pedaços pequenos, o açúcar, a baunilha, uma pitada de sal, o vo e a casca ralada de ½ limão-taiti. Misturar rapidamente, formar uma bola e colocar embrulhada em plástico por uma hora na geladeira. Abrir a massa e forrar o fundo e os lados de uma fôrma redonda de 30 cm de diãmetro. Cobrir a massa com papel-alumínio e encher de grãos de feijão secos, para não estufar. Levar ao forno pré-aquecido por uns 20 minutos. Retirar o feijão e o papel-alumínio. Rechear com a pêra.

Recheio:

700 g de peras maduras

Suco de 1 limão-taiti

200 g de creme de leite

3 gemas

2 claras em neve

85 g de açúcar refinado

descascar as peras, tirando as sementes, cortar em fatias e com elas cobrir a base da massa de torta, molhando com o suco do limão para evitar oxidação. Bater o creme de leite até ficar bem firme. Misturar o creme com as gemas, as claras já batidas em neve e o açúcar. Colocar sobre a pêra. Levar ao forno entre médio e alto por cerca de 20 minutos. Servir gelado.

O tomate, a berinjela, o pimentão, o jiló e a pimenta-dedo-de-moça estão sendo usadas em São Paulo como frutas

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O caqui e o samurai

O caqui é conhecido em inglês como persimmon. Uma lenda japonesa registrada em crônica por Dias Lopes, conta a sua origem, atribuindo-a a um samurai.

O caqui pode ser consumido ao natural e é muito rico em vitamina A e serve-se também ao preparo de compotas e gelatina.

Já o caju, avermelhado ou amarelo, em forma de pêra, não é fruto de verdade. É um “farso”, como diria brincando o ZB. Botanicamente, o fruto verdadeiro do caju é a castanha-de-caju. A parte suculenta, carnosa, cheirosa, em forma de pêra, é o pedúnculo (ou pedicelo) da flor do caju, que incha muito e que no ápice carrega a castanha-de-caju, que é o fruto originário do ovário da flor.

Seu suco é rico em vitamina C (uma unidade de 100g tem 220 mg de vitamina C), riboflavina e pectina. O fruto torrado, a castanha-de-caju, é rico em proteínas e gorduras e muito revigorante. A castanha, quando ainda verde e volumosa, é conhecida no Nordeste do Brasil como maturi e é ingrediente de pratos típicos, como a famosa frigideira de maturi.

Os índios do Brasil faziam vinho usando o falso fruto do caju em festas especiais. Chamavam esse vinho de “macororó” ou “mucororó”.

No fim do século 18, os habitantes de Moçambique também se embebedavam com vinho do falso fruto do caju. A bebedeira trazia de volta a memória perdida, diziam os moçambicanos.

O caju foi levado à África, do Brasil, pelos portugueses, que na volta, trouxeram para o solo tupiniquim outras delícias como a manga e a jaca.

Segundo Câmara Cascudo, os portugueses possuíam o sentido ecumênico ao qual se referia Gilberto Freire, tanto no plano genesíaco como no gastronômico, uma vez que fecundavam todas as mulheres e provavam todas as frutas

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Gil Martins Felippe nasceu em São Carlos e é Ph.D. em Botânica pela Universidade de Edimburgo, Escócia, Reino Unido.

Além desse livro, é autor de outras maravilhas como “O saber do sabor: as plantas nossas de cada dia, Entre o jardim e a horta: as flores que vão para a mesa e No rastro de Afrodite: plantas afrodisíacas e culinária, que em 2004 recebeu o Prêmio Gourmand World Cookbook Awards como melhor livro de história culinária do Brasil