07 de julho de 2026
Ser

Visão holística

Da Redação
| Tempo de leitura: 10 min

Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita de Pederneiras em 114 anos. A tarefa não é fácil, mas nem por isso simboliza um desafio para Ivana Maria Bertolini Camarinha, 39 anos, eleita no início do ano passado.Nascida em Pederneiras (com aproximadamente 40 mil habitantes e localizada a 26 quilômetros a Leste de Bauru) Ivana herdou a "veia política" do pai, Giácomo Metodio Bertolini, que foi ex-prefeito da cidade por dois mandatos. Formada em história e fisioterapia, em 1992, ela entrou no Partido Verde (PV). Dos 15 prefeitos afiliados ao partido eleitos no Estado de São Paulo, Ivana é a única representante feminina. O fato é motivo de orgulho. Não por vaidade, mas porque serve de exemplo para outras mulheres, aponta ela, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. "Sou contra o feminismo, mas acho que devemos ser tratadas com respeito e ter igualdade naquilo que temos capacidade para fazer. (...) Nós não podemos nos acovardar, algumas vezes é preciso ‘dar a cara para bater’ porque muitas coisas podem acontecer. Fico feliz em participar desse momento e poder transformar", diz a prefeita. Casada com o médico César Camarinha e mãe de André, 16 anos, e Laís, 18 anos, assim como muitas mulheres, Ivana desempenha vários papéis ao mesmo tempo: é profissional, esposa e mãe, que somados às experiências como professora de história e fisioterapeuta, fazem com que ela tenha uma visão ampla do mundo.

"É preciso ver o ser humano como um todo: ele precisa de saúde, educação, vida social, esporte, cultura", detalha a prefeita, que aposta em uma administração de caráter holístico. Esses e outros temas foram abordados na reportagem. A seguir, compartilhe dos melhores trechos.

Jornal da Cidade - Como a senhora entrou para a política?

Ivana Maria Bertolini Camarinha – Eu já gostava. Meu pai foi prefeito duas vezes e eu sempre estava junto, o acompanhando. Na segunda gestão do meu pai eu já havia perdido minha mãe e assumi o Fundo Social. Acabei gostando. Fiquei junto com ele e peguei gosto pela política. Mas o lado bom da política, porque há muita coisa triste que nós vemos nela. A política em si é bonita, é se dedicar, trabalhar para o próximo e em prol do município. É isso que me atrai.

JC – Como a senhora disse, seu pai, Giácomo Metodio Bertolini, foi prefeito durante dois mandatos. Que experiências aprendeu com ele?

Ivana – Quando ouvimos falar em política ouvimos falar em escândalo e corrupção. O que meu pai mais me ensinou é que devo trabalhar e fazer o que é certo. Não devemos ter a honestidade nem como virtude, mas como obrigação. Aprendi isso com meu pai, a trabalhar de forma consciente, não tentar agradar todo mundo porque isso não é possível, se embasar no que é correto e trabalhar sempre visando o todo porque se ficarmos pensando só em minoria, querendo ajudar um grupo ou outro, se acaba prejudicando o todo.

JC/b> - A senhora é a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita de Pederneiras. É um desafio?

Ivana – Tudo na vida é um desafio. Acho também que nada é por acaso. Estar na política não foi uma coisa planejada. Eu estava saindo de um processo de doença e acho que uma das razões que me motivou a me candidatar foi eu ter tido câncer e lutado para viver. Foi uma necessidade de fazer alguma coisa e de querer ajudar outras pessoas, como uma recompensa. Isso mexeu muito comigo e foi um dos motivos que me levou a entrar para a política. É uma experiência única, ímpar na vida para mim porque estou aprendendo muito. E para a cidade também porque mulher e homem têm visões diferentes. Eles às vezes se apegam a uma única via e a mulher tem uma preocupação com a área social, saúde, educação, enfim, um pouquinho de cada coisa. Estamos acostumadas a ser dona de casa, mãe, profissional, lidar com vários papéis ao mesmo tempo, administrar as diferenças dos filhos e das pessoas com quem convivemos. Temos um jogo de cintura muito maior do que os homens.

JC – Como prefeita, a senhora foi bem recebida pela população?

Ivana – Percebo que a população tem muito mais liberdade comigo do que com um prefeito homem. Sempre tive apoio e um relacionamento bem tranqüilo com a população. A diferença é que não existe uma hierarquia, uma distância como antes. Pelo fato de ser mulher acho que sou mais próximas das pessoas. Nas creches as crianças vem ao meu colo e dessa forma acabo sentindo até mais as necessidades e investindo naquilo que realmente é preciso.

JC – O fato da senhora ter sido professora de história e trabalhado como fisioterapeuta ajuda a ter uma visão holística das situações? Em que sentido isso contribui na política?

Ivana – Ajuda na questão da flexibilidade. Consigo enxergar várias coisas ao mesmo tempo, não foco em apenas um problema. Tenho uma visão mais ampla de tudo. Mas por outro lado existe uma cobrança grande, até mesmo dentro da minha própria casa.

JC – Por quê?

Ivana – Como prefeita tenho um horário rígido, o tempo todo há algum problema. De um pai, marido ou homem não essa cobrança como de uma mulher. Começo a ser cobrada dentro de casa. Os filhos e o marido cobram a presença. Essas são algumas dificuldades que a mulher no Poder Executivo enfrenta.

JC – Para muitos, política é uma palavra ligada tradicionalmente ao gênero masculino. Existe preconceito em relação às mulheres no poder?

Ivana – Ainda existe preconceito. No Estado de São Paulo, no Partido Verde, foram eleitos 15 prefeitos e somente eu como representante feminina. A mulher no poder é minoria, ainda há uma barreira. Além disso, ela é mais cobrada, é mais "testada". Isso até a população faz, as pessoas testam para ver se sou capaz e vou conseguir fazer, coisa que homem não precisa provar.

JC – Como a senhora lida com essa cobrança?

Ivana – Sou muito tranqüila. Tento levar tudo sem muito problema, vou resolvendo da maneira que eu posso. Sei equilibrar as situações. Quando preciso fico brava e sei falar "não", e também sei quando ser carinhosa, ter um perfil de "mãe" quando visito as creches. Mas tem horas nas quais preciso me impor porque algumas pessoas acham que não tenho competência suficiente. Então existe essa cobrança pelo fato de eu ser mulher.

JC – Mas o cenário política está se transformando. As mulheres ocupam cada vez mais cargos de chefia de Estado e estão presentes na política do mundo todo. A Alemanha escolheu pela primeira vez Angela Merkel como chanceler e no Chile, Michele Bachelet venceu as eleições presidenciais. Como a senhora avalia isso?

Ivana – Acho que nesse século a mulher está lutando mais para alcançar seu lugar porque o mundo não é feito só de homens ou mulheres. Sou contra o feminismo, mas acho que devemos ser tratadas com respeito e ter igualdade naquilo que temos capacidade para fazer. Fico feliz por ter conseguido ganhar a eleição "na raça", pela primeira vez que me candidatei. Acho que estou dando exemplo para outras mulheres de que nós não podemos nos acovardar, algumas vezes é preciso "dar a cara para bater" porque muitas coisas podem acontecer. Fico feliz em participar desse momento e poder transformar. A prefeitura não é mais a mesma.

JC – O que mudou?

Ivana – Tudo. Por exemplo, alguns funcionários disseram que nunca haviam entrado na sala do prefeito. Hoje todo mundo tem mais liberdade. Acho que talvez por eu ser mais acessível, que é uma característica mais feminina, convivemos mais tranqüilamente. Acredito que há até mais solidariedade no trabalho, os funcionários se empenham em produzir melhor porque há um clima leve. Cada departamento era muito individual, a área da saúde cuidava somente da saúde, a social só da parte social. Agora estamos lidando de forma integrada. É preciso ver o ser humano como um todo: ele precisa de saúde, educação, vida social, esporte, cultura.

JC – Quais são seus principais projetos?

Ivana – Para esse ano, nós começamos com o Centro de Especialidades Odontológicos (CEO). Tenho um sonho, que é caro, mas quero fazer um centro de prevenção da saúde da mulher, com a realização de exames preventivos e gratuitos, como papanicolau, mamografia e ultrassom. Fizemos uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e estamos construindo o prédio porque em Pederneiras não existe mão-de-obra especializada. Há uma lista de desempregados mas não temos pessoas preparadas. Quero trazer o Corpo de Bombeiros, necessário para o município. Além disso, esse ano vamos instalar a usina de reciclagem. Temos diversos projetos para concretizar, fora as reformas, o asfalto, as escolas, enfim, cuidar da cidade. Estamos fazendo uma "faxina". Costumo brincar que é preciso ser mulher para fazer isso. É preciso sacudir o tapete e limpar tudo, deixar a cidade com uma cara transparente e solidária, investindo um pouquinho em cada área. Tudo é importante.

JC - O que a política representa para a senhora?

Ivana – Política é doação. Se pensarmos em retorno financeiro, o salário é normal como de qualquer outra profissão que eu teria – o que acho justo, não me conformo com pessoas que fazem uso da política para tirar proveito próprio. Política é um aprendizado imenso. Se convive com tantos problemas e diferenças que precisamos administrar e isso acrescenta muito.

JC - Como é seu dia-a-dia?

Ivana – É uma rotina normal. Acordo às 6h10 com despertador porque não levanto sozinha de jeito nenhum (risos). Tenho um filho na escola e faço o que todo mãe faz: preparo o café, acordo e o levo para a escola. Depois volto para casa, às vezes dou uma passada no almoxarifado, e espero a moça que trabalha em casa. Converso com ela sobre as coisas e a administração doméstica. Depois vou para o trabalho e me envolvo com a prefeitura o dia todo. Essa rotina vai até por volta das 19h. E muitas vezes à noite vou para casa, janto e ainda tenho reunião.

JC – E sobra espaço para se dedicar ao marido e aos filhos?

Ivana – Procuro deixar sempre o final de semana livre, mas sempre há compromissos. O que faço muitas vezes é levar a família junto.

JC – A família apóia?

Ivana – Meu filho, o André, adora política, o sonho dele é ser prefeito. Acho que está no sangue, não é possível. E ele vai muito comigo aos eventos. Meu marido, sempre que pode, me acompanha. Mas às vezes não dá porque ele é médico e tem sua profissão.

JC – Recentemente foi comemorado o Dia Internacional da Mulher. Em sua opinião, quais foram as principais conquistas femininas?

Ivana – Se pensarmos na vida da mulher nós progredimos muito porque antes éramos apenas um objeto de serviços domésticos sem direito a nada. A mulher era totalmente submissa. No decorrer dos anos ela foi galgando espaços e hoje tem estrutura emocional, educacional e pode progredir cada vez mais. Estamos numa posição privilegiada, apesar da cobrança, porque o mundo é machista. Mas estamos seguindo a passos largos. Além de Pederneiras, em cidades da região, como Itaju, Presidente Alves, Torrinha e Rincão, as prefeitas são mulheres. Mostramos que temos condições de trabalhar em condições de igualdade. O lugar das pessoas é estar ao lado, nunca na frente nem atrás. É preciso estar sempre ao lado, trabalhando em comum acordo, em conjunto.