08 de julho de 2026
Ser

Tietagem, na boa!

Da Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Pergunta rápida: você tem ou já teve algum ídolo? A resposta afirmativa é compartilhada pela grande parte das pessoas, que gostam ou se identificam com determinado artista, time, cantor, banda, livro, música, entre outros milhares de ícones.

Em maior ou menor grau, os ídolos são fontes de admiração e projeção para crianças, jovens ou adultos. Isso pôde ser comprovado nos shows do Rolling Stones, realizados no último dia 18 no Rio de Janeiro, e da banda irlandesa U2, nos dias 20 e 21 em São Paulo.

Aproximadamente 1 milhão de pessoas lotaram a praia carioca de Copacabana para conferir a banda de Mick Jagger. Já o grupo liderado por Bono Vox atraiu mais de 70 mil fãs somente no primeiro dia de apresentação - fora as inúmeros pessoas que acompanharam os hits pela TV. É o caso da vendedora Patricia Mayer Pauleto, 22 anos.

Fã do U2 desde a adolescência, ela tem os CDs e DVDs da banda e concorda com as mensagens politicamente corretas entoadas por Bono Vox. "Sou a favor do que eles ‘pregam’. As letras falam sobre paz e amor, não é um grupo que fala qualquer besteira e todo mundo aplaude", diz.

A vendedora Nathália Marioto, 23 anos, adora ACDC e Rolling Stones. Ela foi ao show dos ingleses em Copacabana e conta que "não teve reação" quando os roqueiros entraram no palco: "Foi magnífico. Fiquei muito perto deles e não acreditava que estava os vendo de verdade.". "É incrível como os Stones ‘duram’. Haviam jovens, senhores e até crianças no show", destaca.

Nathália começou a gostar das bandas aos 17 anos. "Quando era mais nova eu tinha pôsteres, revistas, camisetas.", revela. Com o passar dos anos, a "euforia" juvenil despertada pelos ídolos entrou numa fase mais madura. "Na adolescência, a tietagem era uma espécie de apoio, para preencher alguma coisa. Agora é diferente, continuo fã, mas meu gostou ficou ‘apurado’.".

Patricia têm pensamento semelhante ao de Nathália. "Quando era adolescente, achava tudo lindo e maravilhoso. Hoje gosto das músicas, assisto aos shows e compro os DVDs, mas não idolatro a banda.".

O comportamento de Nathalia e Patricia refletem uma tendência natural do fã adolescente e do fã adulto (leia mais abaixo). Dos 14 aos 18 anos, em média, a paixão pelo ídolo está relacionada à própria fase de identificação, auto-afirmação e busca pela individualidade da juventude, explica a psicóloga clínica e doutoranda em sociologia Maria Ivone Marchi Costa.

Segundo ela, a admiração, fanatismo ou idolatria se tornam muito intensos porque o adolescente está em um período de transição da infância para a vida adulta. "É o momento no qual eles começam buscar no exterior a referência que antes tinham na família. Procuram o que mais vai ao encontro às suas identificações e com sua própria personalidade.".

E em muitos casos, os ídolos são justamente fontes de identificação e projeção para os jovens. Thiago Franscisco Germano, 22 anos, fã do ex-piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, se identifica com o espírito desafiador do esportista. "Não só para mim, mas para toda a população brasileira, era um orgulho ter um brasileiro num esporte de elite. E o Senna foi campeão diversas vezes", diz.

De acordo com a psicóloga, a maioria dos jovens projeta nos ídolos o que gostariam de ser. "Às vezes o adolescente é dócil, mas gosta de bandas que transmitem agressividade e infração às normas. É uma forma de extravasar, via fantasia, sua agressividade. Isso é bem característico dessa fase que está em ebulição", exemplifica.

Emoções intensas

Nesse "contexto", o adolescente tem ainda uma contribuição neurobiológica do hormônio oxitocina, que reforça um pouco o caráter obsessivo e a intensidade das emoções, observa Maria Ivone.

"Nessa fase, principalmente aos 17 e 18 anos, esse hormônio está no pico e tudo é mais intenso. As paixões entre namorados, por exemplo, são arrebatadoras. Depois a tendência é diminuir e a pessoa entra numa fase mais tranqüila", detalha a psicóloga.

Foi o que aconteceu com Thiago. Ele conta que na adolescência era fanático pelo Senna. "Desde que começei a entender sobre corridas, o acompanhava na televisão. Todo domingo era a mesma rotina: eu e meus pais nos reunimos para assistir. Agora isso diminuiu um pouco, mas continuo sendo fã, tenho algumas fotos no quarto acompanho reportagens sobre ele", diz.

Com o passar do tempo, Mirella Coleta, 31 anos, também "amadureceu" a paixão por seus ídolos. Ela começou a ouvir os discos de Madonna e Cindy Lauper aos 11 anos e não colecionava todos os discos das cantoras na adolescência. "Gostava do estilo de música e também das roupas que elas usavam naquela época.".

"Hoje ainda sou fã, mas de um jeito mais calmo. Sempre compro CDs e me identifico com o estilo de música porque as letras são românticas e suaves", diz Mirella. Fã do Paralamas do Sucesso, Paulo Cunha, 41 anos, também gosta das canções do grupo.

Ele começou a ouvi-las na adolescência. "A música que mais marcou minha juventude foi ‘Vital e sua Moto’", conta. A letra conta as histórias sensacionais vividas por um rapaz sob duas rodas, retratando o lado aventureiro típico da juventude.

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Limites

Há uma grande diferença entre gostar e admirar determinado ídolo e ser obcecado por ele, aponta psicóloga clínica e doutoranda em sociologia Maria Ivone Marchi Costa. "O fã saudável coleciona fotos, recordações, adesivos, pôsteres ou adota o estilo de se vestir. Isso é previsível."."O fã obcecado abandona todos os seus afazeres para seguir seu ídolo. Enxerga nele um deus, o persegue e investiga tudo sobre sua vida É uma coisa bem exagerada mesmo.", pontua a psicóloga.Na infância, explica Maria Ivone, o comportamento obcecado pode sinalizar alguma problema ou dificuldade, uma vez que a criança precisa se fixar no ídolo. "As crianças são fãs de personagens de desenhos, da TV e contos de fada. Elas fazem coleções, usam roupas. Isso é natural, representa uma forma de projeção da fantasia e de identificação.". O problema é quando a criança começa a sentir necessidade ou viver apenas em função do ídolo, ressalta a psicóloga. Já na adolescência, aponta Maria Ivone, a tietagem pode assumir caráter um pouco mais aguçado por conta dos hormônios e devido à própria fase de auto-afirmação. Mesmo assim, é necessário ficar atento à intensidade do "ser fã saudável ou obcecado". Para a psicóloga, cabe aos pais observar tais limites. "Eles precisam ficar atentos. Se ao invés de fazer suas atividades, o filho sente ‘necessidade’ do ídolo, por exemplo, é hora dos pais conversarem e ‘quebrar’ um pouco essa tietagem.". A gerente de vendas Selma Serapião, 33 anos, mãe de Karen e Carolina, de 14 e 11 anos, respectivamente, adota esse comportamento. "Minhas filhas são fãs Jota Quest, Marcelo D2. Por enquanto está tudo certo", diz ela, que é fã do Rolling Stones. Na fase adulta, a tietagem em nível obsessivo pode mostrar dificuldades em se assumir como único, independente do ídolo. "De repente, pode ser uma fuga de si, da angústia de fazer suas escolhas ou ter sua vida própria", diz. A psicóloga enfatiza que se a paixão por ídolos atinge o estágio patológico - quando a pessoa obcecada foge da realidade e resolve assumir a personalidade do seu ídolo, por exemplo - precisa de ajuda médica e psicológica.