09 de julho de 2026
Cultura

Novo caos no metal

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar dos DVDs terem se tornado lançamentos tão corriqueiros na carreira de qualquer artista musical, seja de qualquer gênero, ainda há projetos dignos de queimar o disquinho digital que revolucionou o mercado de áudio e vídeo, ao invés de apenas transpor um show qualquer para o formato e incluir alguns extras sem-vergonha. Esse “Live In São Paulo” que a banda Sepultura coloca nas lojas é um desses - e ainda faz mais, já que é duplo e tem conteúdo suficiente para tal.

O prato principal é o que o título entrega, um show gravado na casa de shows Olympia, em abril do ano passado. Com público faminto – formado especialmente pelos fã-clubes da Capital –, Derrick Green, Andreas Kisser, Igor Cavalera e Paulo Jr. entregam músicas de toda a carreira, de “Apes of God” e “MindWar” do último disco, “Roorback”, a “Necromancer”, do EP “Bestial Devastation”, de 1986, e “Troops of Doom”, de “Morbid Visions”, do ano seguinte. O show inclui ainda as bem apropriadas versões de “Bullet the Blue Sky”, do U2, e “Black Steel in the Hour of Chaos”, gravadas no projeto “Revolusongs”.

“Esse é o primeiro lançamento nosso que foi pensado para o formato DVD, com todas as opções que o VHS não tinha. São ângulos de câmeras diferentes, o documentário sobre o show, os bastidores, um making of bem completo”, comenta o baterista do Sepultura, Igor Cavalera, em entrevista ao JC Cultura por telefone. “O show é bem parecido com os da turnê, mas tivemos convidados e algumas coisas especiais. É um presente bem legal para os fãs”, completa.

Entre os citados convidados, fazem participações especiais os músicos João Gordo, B Negão, DJ Zé Gonzales, Jairo Guedes (primeiro guitarrista da banda) e Alex Kolesne, do Krisium, além do cineasta-ídolo Zé do Caixão.

O intuito do lançamento seria a comemoração dos 20 anos da banda – que já está chegando aos 22, ainda com corpinho de 18 –, mas Igor prefere não ressaltar tanto esse aspecto. “Se ficássemos falando que é o DVD dos 20 anos, parece que as pessoas vão comprar só por ser uma comemoração, um resumo da nossa carreira. Nem mencionamos no DVD essa coisa dos 20 anos. No fundo, tem a ver porque conseguimos ter músicas de toda nossa história, mas não quisemos colocar imagens antigas ou coisa assim. É um registro novo, da coisa como está agora”, explica.

Além de clipes de “MindWar”, “Bullet the Blue Sky” e “Choke” e versões gravadas na Alemanha de “Nomad”, “Desperate Cry” e “Territory”, o segundo disco de “Live In São Paulo” traz uma sobremesa curiosa para os fãs: um documentário produzido pelo vocalista Derrick Green com imagens desde sua entrada na banda, em 1998, até a turnê da banda pela Europa e Estados Unidos, no ano passado.

Com Dante

Com o lançamento do DVD no Brasil, a banda começa a se preparar para lançar por aqui seu novo CD, “Dante XXI”, que já chegou às mãos dos fãs no Exterior. A idéia inicial de um novo trabalho, segundo Igor, era de realizar um disco temático. Analisando as opções – que incluíram até mesmo um trabalho sobre o cineasta Stanley Kubrick –, a banda optou pelos textos de Dante Alighieri e sua visão sobre o inferno.

“No início, não sabíamos como ia ser a abordagem. A idéia era ter um tema e misturar com coisas atuais. Queríamos que tivesse um pouco uma cara de trilha sonora. Ele acabou soando bem diferente, em termos de instrumentação, com coisas que nunca tínhamos usado”, aponta Igor. “A idéia do Dante caiu bem para o Sepultura, foi muito rico. Ninguém representou tão bem a imagem do inferno como Dante, com tantos detalhes, e pudemos usar isso nas músicas”, coloca.

As críticas já começaram a surgir na imprensa musical estrangeira e são muito positivas, inclusive com a antecipada classificação do álbum como um dos dez melhores do ano. A banda também já gravou o primeiro clipe do disco e o clima será condizente com o tema.

“A idéia inicial era de fazer clipes com o mesmo tema. O diretor pirou muito em cima disso e, pela primeira vez, um clipe nosso terá um grande trabalho de pós-produção, de efeitos especiais. Foi engraçado gravar com fundo verde, sem saber o que vai haver ali. Mas vai ser como se estivéssemos tocando no inferno”, afirma. É esperar para ver e ouvir.