São Paulo - Acusada no Líbano de ter dado um golpe bancário de US$ 1,2 bilhão, um dos maiores da história daquele país, e de envolvimento com o atentado que matou o ex-premiê libanês Rafik Hariri, a economista Rana Abdel Rahim Koleilat, 39 anos, foi presa pela Polícia Civil de São Paulo anteontem à tarde, no Parthenon Hotel de Santana (zona norte de São Paulo).
A polícia paulista diz ter chegado a Rana, no Brasil desde outubro passado, após denúncias feitas por um informante “ligado à comunidade árabe”. Ela acabou presa, segundo o delegado Nicanor Nogueira Branco, por ter oferecido US$ 200 mil a dois policiais civis que a procuravam desde a última sexta-feira. Ela nega todas as acusações.
“Quando nossos policiais chegaram para abordá-la, já dentro do hotel, essa moça falou que tinha dinheiro, dólares, e que queria ir embora. Ela disse: “Tenho US$ 50 mil, US$ 100 mil, US$ 200 mil, quero ir embora. É só ligar para um amigo”, afirmou Branco.
O Cônsul-Geral do Líbano em São Paulo, Joseph Sayah, afirmou à polícia que Rana trabalhava no Bank al-Madinah e, com mais outras sete pessoas, desviou o dinheiro para financiar o atentado a bomba que, em 14 de fevereiro de 2005, matou Rafik Hariri (premiê do Líbano de 1992 a 1998 e de 2000 a 2004) em Beirute.
Na tarde de ontem, após a Polícia Civil confirmar a prisão de Rana, o delegado Moacir Moliterno Dias, da Interpol (polícia internacional), informou que ela é uma das pessoas que circulam pelo mundo na categoria “Difusão Vermelha” - classificação dada aos suspeitos de participação em atos terroristas. O cônsul Joseph Sayah disse ainda existir uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de abril de 2005, alertando sobre a importância da prisão de Rana para as investigações sobre o atentado.
Antes de vir para o Brasil, Rana, segundo consta em seu passaporte, teria passado pela China, Turquia, República Checa, Iraque, França e pelo Reino Unido, onde ela disse ter residência fixa. Para chegar até ela, os policiais civis da 7.ª Seccional Leste contaram com as informações passadas por um denunciante anônimo que, segundo a polícia, é ligado à comunidade árabe.
Nas quatro ligações com detalhes sobre o paradeiro de Rana, ele sempre falou com forte sotaque e demonstrou reconhecer bem a história e a atual situação da política e da economia do Líbano. “Num primeiro momento, até desconfiamos da veracidade das denúncias feitas pelo informante. Era tudo muito certinho, muito preciso, bem detalhado. Nem fomos para cima logo, só quando recebemos pelo Correio uma cópia do despacho da Interpol sobre o pedido de localização dela é que resolvemos agir”, revelou o delegado Murilo Fonseca Roque, um dos que atuou na prisão de Rana.
No momento da prisão, ela portava um passaporte da Irlanda do Norte em nome de Rana Klailat. Um levantamento preliminar feito junto às autoridades britânicas no Brasil e também no Líbano, ontem à tarde, apontou que o documento é falso, pois o número dele corresponde a um emitido para um homem.
Na busca por informações sobre quem eram as pessoas com quem Rana mantinha contato no Brasil, os policiais também apreenderam seu telefone celular, além de R$ 14.600,00. Como foi enquadrada no crime de corrupção ativa, caso seja condenada, Rana poderá pegar uma pena de prisão que varia de um a oito anos.
Até as 20h, as autoridades paulistas ainda não sabiam onde ela ficará presa. A hipótese mais provável é a de que ela fique sob custódia da Polícia Federal, na Lapa (zona oeste de SP). Na delegacia, já quando era interrogada, Rana disse não entender o que era perguntado pelos policiais. Por conta disso, Muhamed Suaid, um comerciante que vive no bairro do Itaim Paulista (zona leste de São Paulo), foi chamado pelos investigadores para ajudar fazer a tradução.