Eu, Jorge Carducci, vou contar uma das muitas histórias que realmente aconteceram comigo em minhas pescarias. No ano de 1975, morava na pacata cidade de Lucélia, na região de Tupã. Lucélia fica rodeada dos rios Feio, do Peixe e Paraná. Eu tinha um amigo, o Zeca. Nós éramos amigos inseparáveis, pescávamos todas as semanas. Um dia, para fazer o seu gosto, fizemos uma pescaria que ficou na história.
Pegamos o trem em Lucélia e fomos até a divisa de Mato Grosso do Sul. Em Panorama pegamos um barco e subimos o rio acima 16 km, até chegar onde o rio Verde desaguava no rio Paraná. Subimos 10 km do rio Verde e chegamos em um lugar muito estranho e solitário, mas o Zeca dizia que ali era um excelente lugar para pescar dourado.
Pagamos o barqueiro e ele nos deixou. E começamos a arrumar nossas tralhas, por volta das 18h30. Mas o Zéca foi um amigo que sempre me deu trabalho em nossas pescaria, comia demais na beira do rio, bebia muito, não tinha paciência de esperar o peixe pegar no anzol.
Naquele dia, ele já havia bebido muito e, ao descer aonde nós íamos pescar, caiu sobre uma raiz que estava fora da terra. Para minha surpresa, vi um profundo e imenso corte na barriga dele. Fiquei apavorado, pois vi todo o seu intestino para fora do ventre. Entrei em desespero, pois eu não tinha onde pedir socorro e já era quase noite.
Arrastei ele barranco a cima e lavei aquele imenso corte com água limpa. Passei óleo de comida e fiquei ali esperando o momento final de sua vida. Mas como eu já fiz muitos testes de sobrevivência na selva, comecei a imaginar alguma coisa que poderia salvar o meu teimoso amigo.
No Mato Grosso, existem uns formigões que medem aproximadamente 5 cm. Eles estavam subindo e descendo no tronco de uma árvore. Eu pegava um por um e colocava ele no corte, quando ele fechava os ferrões eu torcia o corpo dele e a cabeça do formigão ficava como um ponto de cirurgia. E assim, com noventa e um (91) formigões eu fechei todo o corte que o amigo sofreu.
Para minha sorte, naquele momento descia o rio um barco que ia até o Iate Clube Rio Verde, que já ficava nas margens do rio Paraná. Ele, vendo aquilo, nos levou até Panorama, onde eu peguei uma ambulância para leválo até Dracena, onde foi feita uma delicada cirurgia.
Os médicos de plantão perguntaram o que era aquilo, e eu lhes contei toda a história daquela triste pescaria. Ganhei daquele hospital um lindo troféu de “Honra ao Mérito”. Consegui salvar o amigo, mas perdi o pescador, porque nunca mais ele pegou uma vara para pescar.
Jorge Canducci