30 de abril de 2026
Articulistas

Seis ou meia-dúzia


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Quando o IBGE anunciou o PIB de 2005, 2,3 %, o boquejo só não foi maior por que as bocas estavam cheias de confete. Não foi surpresa. O desastre vinha sendo anunciado há tempos, mesmo assim, o rescaldo do Carnaval na área econômica foi ácido para o governo. O setor produtivo foi um choro só, mas os banqueiros, a quem o crescimento do País parece pouco importar, resgataram Zé Kéti cantando “quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços...”. Pudera, em 2005 o lucro dos bancos cresceu 36 % e, nos últimos 11 anos, seus ganhos ultrapassaram R$ 100 bilhões. No governo FHC, lucraram R$ 44,1 bilhões e, no governo petista, a cifra já passa dos R$ 60 bilhões. Com essa “alegria”, são os principais doadores das últimas campanhas políticas.

O desempenho de certas empresas de capital aberto como Gerdau, Telesp Operacional, AmBev e mais duas dezenas de outras delas (fora as estatais), que registraram lucro superior a R$ 1 bilhão em 2005, não significa que a indústria andou bem no ano passado. Esses lucros bilionários estão concentrados em uma minoria que tem acesso fácil ao capital, no Exterior, pagando taxas de juros bem mais baixas do que as aqui, cobradas. O grosso do empresariado não tem esse refresco. A Indústria e a Agricultura sofreram em 2005. Os altos juros contribuíram para a queda dos investimentos de 10,9 % (2004) para 1,6 % (2005). A construção civil e a agropecuária (pesos pesados na composição do PIB) cresceram em 2004 acima de 5% e em 2005, estiveram próximo a 1%. Assim, milhões de empregos foram para o beleléu e em País que não tem emprego, dá-se o Bolsa-Família para o povão.

O sociólogo inglês Anthony Giddens, em entrevista recente, afirmou: “Não acredito que o mercado resolva tudo. É preciso ter política industrial, políticas sociais para os pobres, mas também é preciso que o país cresça. Não sabemos outra maneira para tirar milhões de pessoas da exclusão que não o crescimento”. O ex-diretor da London School of Economics and Political Science é insuspeito para falar de exclusão social e recomendar que o melhor remédio para tal mal é o crescimento. Não é preciso ganhar o Nobel de economia para saber que juros altos são veneno para o desenvolvimento.

A redução da Selic, para 16,50 % ao ano não muda muita coisa. O Brasil, com juros reais de 11,6 % ao ano, vai continuar campeão mundial, e Cingapura, com 7,0%, o vice. O banco americano Morgan Stanley divulgou esses dias que a rentabilidade das aplicações no Brasil rendem, em dólar, 22% ao ano contra 5% nos países asiáticos. Isso atrai dólares e a maior parte vem especular com os títulos públicos, sem risco nenhum. O excesso de dólar no mercado derruba a taxa de câmbio e valoriza de forma fictícia o Real, prejudicando as exportações. Essa política não ajuda o crescimento do País.

Em 2005, fizemos uma economia de 4,25% do PIB, uma brutalidade, para pagar R$ 167 bilhões de juros e, em contrapartida, tivemos esse crescimento recessivo de 2,3 %. Em janeiro deste ano, pagamos R$ 18,7 bilhões de juros dessa dívida. Em fevereiro, repetimos a dose e assim será os meses restantes. É uma bola de neve que, em 2000, pesava R$ 510,7 bilhões e agora, cinco anos depois, graças a essas taxas de juros, ultrapassa a casa de R$ 1 trilhão. Nem ganhando dez Copas, o País agüenta.

Os candidatos à Presidência começam a ser escolhidos e é preciso ouvi-los com atenção, principalmente em relação à economia. Apenas baixar os juros não será suficiente, pois a dívida já extrapolou a estratosfera e nessa velocidade tornar-se-á impagável. Vamos torcer para que o debate de idéias seja frutífero e permita Deus que não tenhamos que decidir entre seis e meia-dúzia.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil e foi deputado federal, secretário estadual da Agricultura e prefeito de Bauru