08 de julho de 2026
Geral

‘Aleitamento ainda é um grande nó’

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 10 min

Há mais de 20 anos, a nutricionista Maria Nereida Panichi coordena uma das instituições bauruenses mais respeitadas pela competência e profissionalismo no trabalho executado: o Banco de Leite Humano e Centro de Informações sobre Aleitamento Materno. Aberto em 1984, a instituição é uma das 187 unidades especializadas em aleitamento humano no Brasil, País que dispõe hoje da maior e melhor rede do gênero no mundo, mas que ainda mantém inúmeros obstáculos à amamentação. “O aleitamento ainda é um grande nó”, frisa Panichi.

Em entrevista ao JC, a coordenadora da unidade, que também é uma das fundadoras do Grupo de Apoio ao Aleitamento Materno Exclusivo (Gaame), detalha as atividades desenvolvidas na unidade, fala da importância da amamentação, do perfil das doadoras e dos problemas enfrentados pelo Brasil no setor.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

JC – Como é sua rotina fora do trabalho? O que você gosta de fazer em casa?

Nereida – Minha vida é bastante corrida, pois divido as tarefas de casa com as atividades profissionais. Começo o dia cedo e por volta das 6h da manhã, às vezes até antes, já estou acordando. Saio para levar os filhos à escola e já entro aqui no Banco de Leite, onde trabalho bastante e tenho paixão pelo que faço. Meu dia só termina lá pelas 23h.

JC – Essa paixão pelo Banco de Leite surgiu de repente ou já era nutrida por você?

Nereida – Foi meio por acaso. Quando terminei a faculdade- sempre gostei da área materno-infantil - decidi que iria seguir para a saúde pública, pois gosto dessa área. Dei aula na faculdade por cinco anos e associei por três anos as duas atividades - a formação e a saúde pública. Mas optei por uma das áreas, pois gosto muito mais da parte prática do que ser professora. Acho que educação você pode fazer o tempo todo em saúde pública.

Quando me formei, já havia uma proposta de emprego da faculdade e tinha intenção de fazer especialização, que foi quando surgiu a idéia do Banco de Leite. Fiz a proposta e, entre oferecer para um lugar ou outro, deu certo com a Prefeitura Municipal de Bauru.

JC – Quais são as atividades desenvolvidas hoje pelo Banco de Leite?

Nereida – Nosso trabalho é bem amplo - maior que outros bancos. Como somos um banco ligado à saúde pública, temos funções dentro da Secretaria Municipal da Saúde, o que poucos no País têm. A maioria funciona dentro de hospitais e limita-se ao trabalho de hospital.

Temos três frentes de ação. Uma é ser banco de leite. Tenho que captar o leite, processá-lo com qualidade e distribuí-lo para quem precisa realmente e não para qualquer um que aparecer, pois o leite não é distribuído como alimento e sim como medicamento. Por isso, ele vai para crianças internadas nos hospitais de Bauru e para aquelas que não estão internadas, mas apresentam algum problema de saúde que precisam do leite para se recuperarem.

A outra frente é a de pronto-socorro do aleitamento, o atendimento ambulatorial que reúne todos os problemas decorrentes e impeditivos do aleitamento. Um deles é quando a criança não está conseguindo mamar direito, outro são inflamações das mamas. Entram aí também os modos de amamentar, ordenhar e armazenar o leite, como desmamar, entre outras questões.

E a terceira frente de trabalho é de orientação, que vai desde aos alunos nos estágios e o treinamento dos profissionais nos bancos de leite da região que nos procuram até ao auxílio nos quartos de hospitais sobre as questões do aleitamento. Também incluem aí a coleta de informações sobre os pacientes para fazer uma triagem das crianças e mães para agendamento em programas de assistência. Além disso, também fazemos trabalhos de orientação e de divulgação da importância do aleitamento para quem nos solicita.

JC – Vocês desenvolvem parcerias com outras instituições?

Nereida – Sim. Temos com a Associação Hospitalar de Bauru, o Adolfo Lutz, desde 1989, que faz toda parte de controle de qualidade do leite, com as universidades (USP, USC e Unip) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

JC – Que tipo de problemas vocês costumam enfrentar no Banco de Leite? A falta de doadores, comum nos namcos de sangue, é um deles?

Nereida – Temos um trabalho já bastante sedimentado em Bauru e, quando falamos que precisamos de leite, é como um rastro de pólvora, pois os doadores aparecem rapidamente. Mas temos ciclos de altos e baixos nas doações. Brincamos ao chamar esse período de “entressafra”. Normalmente, nos fins e começos de ano e no frio diminui muito a doação. Entramos em 2006 com pouco leite e doadoras, mas agora já percebemos que há mais doadoras e o número está aumentando. E, quando chegamos em um período de muita falta, lançamos mão da mídia para desenvolvermos as campanhas.

JC – Qual o perfil das doadoras?

Nereida – Nossas doadoras não fogem muito do perfil registrado fora de Bauru. A maioria das que doam é de baixa renda, mas também temos muitas doadoras da classe média e algumas da classe alta. Quando a pessoa vem aqui com dificuldade de aleitamento, não nos interessa de qual classe ela é. Atendemos todas e temos muito orgulho de oferecer um serviço público de qualidade. Partimos de um princípio ideológico de que todas as pessoas têm o direito a um bom serviço sem ter de pagar além disso.

JC – É um bom sinal as pessoas de baixa renda terem essa consciência, não é mesmo?

Nereida – Sim. Temos doadoras que colaboram com a gente com volumes razoáveis de leite. Ficamos muito agradecido a todas, pois elas ajudam crianças que precisam. É um ato de cidadania e solidariedade muito bonito e notamos que elas fazem com uma enorme boa vontade e se emocionam quando falamos que salvarão crianças.

JC – E o trabalho do grupo de aleitamento (Gaame)?

Nereida – O grupo está crescendo bastante, pois não é só de Bauru, mas também da região. Nessa última reunião que fizemos, no Dia Internacional da Mulher, vieram representantes de várias cidades. Continuamos com o trabalho, fazendo reuniões teórico-científicas e planejando ações de estímulo e divulgação do aleitamento, que aumentou bastante as doações, mas ainda é um grande nó.

JC – Por qual motivo você classifica o aleitamento como um “nó”?

Nereida – Porque ainda há muita dificuldade para as mulheres amamentarem. Além das dificuldades pessoais, há as de trabalho e isso exige uma avaliação muito profunda.

JC – Mas isso acontece mesmo com o País sendo considerado referência mundial no aleitamento?

Nereida – Sim. Mesmo o País tendo vários bancos de leite com o trabalho reconhecidamente de qualidade, o volume de doações ainda é pequeno diante das necessidades. Temos mais de 180 bancos de leite no Brasil - mais de 50 no Estado de São Paulo, que é a maior rede estadual de bancos de leite -, mas ainda são poucos quando comparados com as demandas que temos.

Todos os hospitais que possuem crianças internadas, UTIs neo-natal e maternidades, deveriam ter bancos de leite. Não precisava nem ser grande, mas que já desenvolvesse um trabalho de divulgação e assistência ao aleitamento. Além disso, também há poucos hospitais “Amigos da Criança”, que têm essa rotina de incentivo ao aleitamento desde o início e poucas cidades trabalham o tema aleitamento com as crianças desde pequena. Ela precisa aprender qual o melhor alimento para quando tiver um filho, saber que a amamentação é importante e que os municípios devem ter profissionais e estrutura para dar esse respaldo.

Outro fator que também pesa muito é que hoje somos o resultado de todo um trabalho de muitos anos de desestímulo ao aleitamento, que chamamos de desmame comerciogênico.

JC – O que é esse desmame comerciogênico?

Nereida – É aquele feito para atender fins comerciais e vender leite em pó. Temos farto material que demonstra o que foi feito para tirar da idéia das mulheres a importância do aleitamento. Isso na década de 1920, 1930, 1940 até 1950, 1960 e 1970, que foi o auge dessa política.

JC – Você acha que ainda sofremos com resquícios dessa época em relação ao aleitamento?

Nereida – Sim e vou te explicar o porquê. Em 1980, começou-se a ter técnicos e pessoas que realmente faziam políticas de saúde percebendo o quanto isso era ruim. Iniciou-se movimentos na saúde, no ministério e reuniões com experts em saúde pública, culminando posteriormente com o surgimento das semanas de amamentação e formação de uma aliança de defesa.

Hoje vivemos a luta por isso, mas para o Brasil e o mundo, 20 anos de uma política de aleitamento ainda é muito pouco. A mulher, atualmente, tem um filho que é resultado de uma amamentação oriunda dessa época do desmame comerciogênico, quando as mães dessas mulheres de hoje, que são as avós, não conseguiam amamentar porque não contavam com profissionais capacitados e todo o trabalho cultural do aleitamento.

Por isso, falamos que temos de resgatar toda uma cultura, pois temos mulheres hoje interessadas em amamentar, mas que não viveram o aleitamento porque não conseguiram ser amamentadas. Também temos mães que nem tentaram amamentar porque o que se falava, na época, é que o leite em pó era tão bom quanto o materno e que os bicos das mamadeiras também eram tão bons quanto as mamas. Então, como alguém que não viveu isso pode ajudar? Como alguém que não foi amamentada pode ter uma experiência positiva?

As pessoas sabem que o leite materno é importante e querem amamentar, mas muitas vezes não conseguem passar por cima de coisas muito íntimas e internas. Além disso, também esbarram em profissionais que, apesar de saberem que o leite materno é fundamental, não sabem trabalhar com isso. Há médicos que defendem o aleitamento materno, mas que acham que a partir dos nove meses de idade do bebê, ele não vale mais para nada.

JC – Então o País padece ainda desses problemas porque a cultura da amamentação é muito recente?

Nereida – Não só o Brasil, como também o mundo. Há países onde a prevalência do aleitamento materno é maior. No Brasil e em Bauru melhorou muito. Mas Bauru ainda está muito aquém, pois nas últimas pesquisas que fizemos estávamos com apenas 12,5% de prevalência do aleitamento materno exclusivo até quatro meses.

JC – Já que o aleitamento materno ainda é cercado por esses problemas, não custa explicar às pessoas a importância da amamentação e até quando devem dar o peito a seus filhos...

Nereida – Ninguém discute hoje a superioridade do leite humano em termos de nutrientes, digestão, aproveitamento e formação de anticorpos contra doenças. Esse é nosso grande trunfo porque, por mais que as indústrias consigam tecnologicamente produzir um leite avançado, nunca conseguirão colocar anticorpos humanos dentro dessa fórmula.

Mas apesar de termos esse trunfo, temos o melhor produto e a pior propaganda porque não temos o marketing agressivo das indústrias de leite, que contam com o pior produto mas a melhor propaganda. E, nesses anos todos de desestímulo ao aleitamento, também foram se formando profissionais que não conhecem direito o leite nem sabem trabalhar direito com o aleitamento. Hoje, há profissionais da área da saúde - não só os médicos -, que não sabem orientar sobre o aleitamento.

Temos de trabalhar para que as mulheres consigam passar por estes obstáculos.Na hora de falar, o aleitamento materno é muito bonito, mas na hora de vivenciar, apresenta dificuldades, como as dores, fissuras de mamilo e inflamações das mamas. Mas em um ambiente como em Bauru, onde se trabalha o aleitamento no pré-natal, nos hospitais e em outros serviços de apoio, as mulheres estão conseguindo amamentar. O que se recomenda hoje é que o aleitamento materno seja exclusivo até os seis meses de idade do bebê. E continuado, até os dois anos, quando se começa a introduzir outros alimentos à criança.

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Perfil

Nome- Maria Nereida Panichi

Profissão- Nutricionista

Data de nascimento - 20/8/1960

Naturalidade - Ribeirão Claro (PR)

Hobby - Assistir filmes

Livro que está lendo ou leu - O Senhor dos Anéis

Cor preferida - Rosa

Time do coração - São Paulo

Para quem você daria nota 10? - “Para o prefeito Tuga Angerami pelo esforço que ele está empreendendo para recuperar a administração da cidade.”

Para quem você daria nota 0? - “Para os políticos em geral.”