Um grupo de profissionais formado por oito professores, um jornalista, um advogado e uma publicitária se uniu com um propósito: iniciar um movimento para simplificar o idioma português. Criaram a Organização Não Governamental (ONG) “Alfabeto sem Amarras” e elaboraram um estudo sobre os itens do código da língua portuguesa que devem passar por mudanças.
O estudo foi feito a partir do livro “Reforma do Idioma Português”, do advogado José Perea Martins, membro da Ong, que será lançado na XIX Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, neste final de semana.
O jornalista Moacyr Penna, as professoras Aiko Matsumoto e Tomiko Matsumoto e o advogado José Perea Martins, membros da ONG, estiveram no JC para falar sobre a proposta. O objetivo principal, segundo Martins, é criar condições para que todos os brasileiros sejam alfabetizados mais facilmente.
A preocupação do grupo com a língua portuguesa amadureceu através das experiências que cada um dos integrantes teve ao longo da vida profissional. As professoras Tomiko e Aiko Matsumoto vivenciaram a árdua tarefa de alfabetização de crianças. Isto há 20, 30 anos.
Já era muito complicado, segundo as professoras, fazer o aluno compreender que o “x”, por exemplo, em uma circunstância era usado com som de “s”, em outra como “z”, em outra como “ch”, em outra como “qs”. “Era bem difícil, mas naquele tempo, conseguíamos fixar as regras e o aluno era alfabetizado em seis meses”, conta Aiko Matsumoto.
O jornalista Moacyr Penna avalia que hoje a diversidade de regras para aprendizagem da língua portuguesa cria um problema sério. “Isto porque hoje as crianças passam de ano sem aprender”. José Perea Martins começou a constatar os problemas do idioma português, na década de 70, com adultos em fase de alfabetização.
Relações públicas do curso de alfabetização de adultos do governo federal, antigo Mobral, Martins visitava com freqüência as salas de aula. “Os alunos, adultos entre 20 e 40 anos, diziam que se aprendessem a escrever o próprio nome, já estariam satisfeitos. Eles afirmavam que jamais aprenderiam todas aquelas regras que tentavam ensinar. E realmente, depois de adultos, não conseguimos mais aprender um código tão complexo”.
Hoje a situação não é diferente. “As pessoas fogem na hora de escrever uma redação, um ofício, um documento”, afirma Martins. Segundo ele, de acordo com especialistas, 65% da população brasileira é analfabeta funcional. Isto significa que não entendem o que lêem e escrevem.
Penna afirma que pessoas que passaram por anos de estudo também têm dificuldades com o português. “Uma prova disso é o fato de a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) reprovar 80% daqueles que prestam o exame, por erros de português”.
Para os membros da ONG, a complexidade do idioma, com sua diversidade de regras, é responsável por este quadro. “O sistema no qual está alicerçado o idioma português é confuso, incongruente ou inacessível”, afirma Martins em seu livro “Reforma do Idioma Português”. “A simplificação irá propiciar mais dinamização e progresso à nossa língua”.
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Surgimento do idioma
A imensa quantidade de regras que constituem o código da língua portuguesa está fundada na sua origem, conforme explica José Perea Martins em seu livro “Reforma do Idioma Português”.
O período histórico do idioma português inicia-se em 1140, quando Portugal liberta-se da Espanha. Nesta época, na região da Lusitânia, a língua predominante era o “galego-português”. Com a independência, dom Afonso Henriques determinou a separação das duas línguas.
Do seu surgimento até sua consolidação, em 1572, a língua portuguesa sofreu várias transformações, de acordo com Martins, principalmente, na fonética e na ortografia. As primeiras mudanças foram realizadas para distanciar do castelhano falado no Reino do Leão, Astúrias, Castela e Aragão, e Navarra.
As primeiras regras gramaticais do português separado do galego foram criadas a partir dos registros dos cartórios, que misturavam os dois idiomas. “Era uma confusão. Em alguns escritos o “g” tinha som de “gue”, em outros de “gê”. O mesmo acontecia com o s, o z, e assim por diante”, explica Martins.
Depois das primeiras mudanças que formalizaram a separação do português e do galego, vieram as modificações oficiais: de D. Afonso III, em 1265; de D. Dinis, em 1290; D. Fernando, em 1379 e de D. João II, em 1488. Em 1572, a publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, estabeleceu um novo padrão de nobreza idiomática que, na essência, é a mesma até hoje, de acordo com Martins em seu livro.
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Última reforma foi branda
A língua portuguesa no Brasil já passou por algumas reformas. A que promoveu maior mudança foi aprovada pela Academia Brasileira de Letras, em 1943, mas só foi transformada em lei em 1955. Foi nesta reforma que o “ph” foi substituído pelo “f” (pharmácia, farmácia); o “ch” pelo “qu” e pelo “c” (chímica, química; eschola, escola); o “p” foi suprimido de algumas palavras (óptimo, ótimo); entre outras mudanças.
Em 1971, novas modificações são feitas no idioma, porém bem mais tímidas. Os acentos diferenciais em palavras homógrafas (mesma grafia) com pronuncia fechada, são suprimidos. Por exemplo, o substantivo govêrno deixou de ser acentuado. Assim governo (substantivo) e governo (verbo) ficam exatamente com a mesma grafia. Apenas algumas palavras homógrafas permanecem com acento diferencial: pôr, pêlo, péla e outras.
Em 1995 é aprovada no Senado e em 2001 no Congresso Nacional a proposta de simplificação elaborada por Lisboa, em 1990. No entanto, as mudanças são ínfimas: supressão do acento diferencial nas poucas palavras homógrafas que ainda o conservavam e queda do uso do trema.
“Queremos agora promover uma reforma radical, que realmente simplifique nosso idioma”, afirma Martins. A divulgação da proposta em estudo pela ONG, na mídia de Bauru é o início da campanha pela simplificação da língua portuguesa.
O próximo passo, segundo Martins, será divulgar o trabalho em outras cidades. “Depois de conseguirmos a adesão de outros municípios teremos uma proposta final para ser apresentada à Academia Brasileira de Letras e ao Ministério da Educação”.
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A simplificação
A ONG “Alfabeto sem Amarras”, embora ressalte que há outros pontos a serem criticados no idioma português, se ateve a 17 itens. Todas as mudanças propostas têm por objetivo principal aproximar o quanto possível a grafia da pronúncia, mantendo uma única grafia para cada som.
Entre as principais alterações estão as referentes ao emprego da letra X; do M entre o P e o B; das letras G e J; da letra C; da letra H; das letras S e Z; dos pronomes da segunda pessoa; da letra N no final das palavras; dos dígrafos SC e SÇ; simplificação das regras de acentuação, entre outras.
O emprego do X é considerado, na avaliação de Martins, um dos principais pontos de confusão na aprendizagem correta da escrita portuguesa. Atualmente, a letra possui cinco fonéticas diferentes (s, z, ss, ch, qs) e também é empregado sem valor fonético. Com a reforma proposta pela Ong, o X passa a ser empregado apenas com a pronúncia “qs”.