08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Gracejo e o malicioso


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Há uns 40 anos, Bauru tinha três rádios: a Auri-Verde, a Terra Branca e a Bauru Rádio Clube. Numa certa tarde, estava ouvindo uma delas quando uma ouvinte ligou e conversou mais ou menos assim com o “speaker”: - Sabe, quando eu passo na rua tem sempre um homem que me chama “ei, mulata, ei, pretinha” e eu fico chateada demais; é um homem bem mais velho que eu. Bem, outro dia eu estava indo para casa e um rapaz me chamou: “Oi, moreninha fofa” e eu gostei muito. Estou errada? Se deixar ele se encostar em mim o que será que ele vai pensar? Que sou fácil? O que faço? “Me” ajude, por favor?”.

Bem, é por aí a história, com as falhas que o tempo provoca. Mas, o que mudou de verdade? Para aquela ouvinte, hoje bem cinquentona, a maneira de a chamarem de mestiça e depois de mestiça-desejável dimensionaram a sua indignação e o seu posterior envaidecimento, expostos anonimamente num programa de rádio do Interior paulista.

O tempo passou e tudo praticamente continuou igual, só a divulgação dos fatos tornou-se mais aberta e as punições mais severas. Ficou mais fácil identificar o limite entre o gracejo até malicioso, a corte, o flerte, a cantada até, e o assédio sexual criminoso, o “tirar vantagem em razão da hierarquia ou função”. Só não conseguiu-se ainda regrar-se o emocional do ofendido, balizar suas emoções, sua capacidade de equacionar os eventos, reagir - bem ou mal - e alertar terceiros.

Fernando Marchini - RG 5.315.480 - OAB124.031 - Santo André