É honrosa a decisão da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo em acrescentar ao currículo do Ensino Médio a disciplina de Filosofia. Desde o ano passado as escolas do Estado incluíram em sua grade a abordagem filosófica, porém, como percebemos, não houve adaptação da estrutura escolar à adoção de tal disciplina, o que pode comprometer de forma significativa a sua otimização e o seu aproveitamento. Deve-se partir do pressuposto que a Filosofia, mais do que uma matéria de conteúdo, é uma atitude de vida que deve despertar no aluno a consciência de seu papel e função na sociedade, e isso exige um professor com formação específica em filosofia, um horizonte hoje muito longe de ser atingindo.
Para entender a importância da Filosofia e do filósofo em seu ensino, é necessário entender para que serve a filosofia afinal. A filosofia, ao contrário de outras disciplinas, não possui um fim pragmático, ou seja, não trabalha com um objeto específico da realidade, mas possui um horizonte muito mais amplo que se espalha a todos os setores do pensamento humano e da vida em sociedade. Para uma sociedade profundamente utilitarista como a nossa, para a qual a ação sempre se converte em fins específicos, a Filosofia tem muito a contribuir, desde a busca de maior universalidade do conhecimento, da flexibilidade intelectual no indivíduo até o estímulo da introspecção, da reflexão, da crítica, do voltar se a si mesmo na busca de referenciais seguros para projetar a vida. A filosofia potencializa o pensamento, exercita o raciocínio, emancipa o indivíduo como sujeito ativo de sua história e da sociedade. Somente formando cidadãos críticos, profundamente conscientizados de seu significado no mundo e com autonomia de ação é que poderemos produzir melhorias aos graves problemas da sociedade brasileira. A vocação da filosofia é trabalhar com o espírito do homem, colocá-lo frente a si mesmo e o converter em produtor de conhecimento.
Para isso, antes de ser uma disciplina que trabalhe com correntes de pensamento, teorias críticas ou idéias, a filosofia deve ser uma vivência. O desafio é fazer da filosofia algo vivo, presente no cotidiano nas situações mais simples. Muito mais importante do que saber o que Sócrates ou Platão falaram é aprender o que a filosofia de Sócrates e Platão pode contribuir com minha existência; experienciar o pensamento dos filósofos e colocar sua sabedoria em minha vida. Infelizmente a resolução do ensino da filosofia nas escolas do Estado de São Paulo entrou em vigor sem haver qualquer adaptação da estrutura escolar às suas exigências. O que na prática significa que existem poucos filósofos formados para suprir a demanda de classes, obrigando professores de outras áreas a complementar o quadro docente. Essa atitude em si descaracteriza o ensino da filosofia. Não podemos converter o estudo filosófico em história da filosofia ou em teoria filosófica, pois isso irá tirar o foco da real identidade da disciplina, convertendo-a em um conjunto vazio de idéias. Sendo assim, o profissional mais apto a trabalhar com o ensino da Filosofia é o filósofo, pois além da teoria ele possui a vivência, conhece o interior de cada corrente e possui a didática e a pedagogia próprias para o ensino pleno do conteúdo. Um dos grandes problemas da Educação no Brasil é este: não há uma adequação racionalizada entre as resoluções do governo com a estrutura humana e física das escolas, daí percebermos que idéias tão boas simplesmente fracassam por falta de planejamento. Se desejamos realmente que a Filosofia cumpra seu papel na educação como celeiro de potencialização do pensamento, necessitamos criar situações para que o seu ensino seja otimizado ao máximo. Isso parte desde a vontade política até o investimento humano-técnico do corpo escolar.
O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Teoria do Conhecimento da Universidade do Sagrado Coração - e-mail: fsantos@usc.br