Desde que recomeçou a escalada dos juros, a partir do terceiro trimestre de 2004, tentamos mostrar que a política monetária do Banco Central estava nos levando novamente a uma situação de excessiva valorização do Real que iria reduzir desnecessariamente o crescimento da economia e derrubar os investimentos no setor exportador. Após quinze meses e uma dezena de reuniões do Copom, o País conheceu os resultados: a economia desperdiçou pelo menos 2% de crescimento do PIB e a taxa de expansão de nossas exportações caiu para a metade. Como se deve esperar quando repetimos erros estúpidos, as conseqüências desabam sobre os mesmos de sempre, as empresas pequenas e médias que investiram na conquista de mercados externos e os trabalhadores demitidos naqueles setores de maior absorção de empregos, as indústrias têxteis, de calçados, de móveis, de brinquedos e já chegando às pequenas metalúrgicas, para citar apenas alguns exemplos. Nesse curto período, mais de mil mini e pequenas empresas viram descer pelo ralo do dólar “barato” todo o investimento que vinham fazendo para enfrentar a acirrada competição do comércio exterior. Na contramão deste esforço, constata-se o surgimento de mais de oitocentas novas organizações dedicadas aos negócios de importação nos últimos seis meses.
Os efeitos perversos que a política cambial está produzindo na indústria brasileira crescem à cada semana. Desde o início do ano o fornecimento de autopeças vem sendo transferido da indústria nacional para a produção estrangeira. Para a indústria automotiva é mais negócio importar peças de fabricantes asiáticos, da China, por exemplo, pois a diferença de preços é tal que “compensa” os riscos da perda de qualidade. O consumidor provavelmente só vai sentir o drama mais adiante, se o carro pifar...É desagradável constatar que o nosso presidente Lula, o metalúrgico, esteja distante do problema do desemprego do seu companheiro peão de fábrica. É uma injustiça dos diabos – como ele costuma dizer - mas está acontecendo graças ao estímulo às importações beneficiadas de um lado pela burrice da sobrevalorização do Real e de outro pela escandalosa (e esperta) política cambial mantida pela China, onde os preços são políticos e as taxas de juro mantidas absolutamente competitivas pelo governo.
É uma concorrência devastadora, desleal, que vai destruindo nossas linhas de produção e não é porque a China seja o “império do mal”, mas porque nós temos as políticas monetária e cambial erradas. Só depois de um ano e meio é que o nosso Banco Central veio a entender a tolice que é manter o enorme diferencial que permitiu a supervalorização do Real. Sofremos a especulação na arbitragem das taxas de juro, onde na realidade não entram recursos, mas é a especulação entre as taxas de juros interna e externa que valoriza o câmbio futuro e transmite a valorização para o câmbio presente. Enquanto continuarmos financiando a Dívida Pública com mecanismos absolutamente inadequados, através de papéis “selicados” como vimos fazendo desde 1998, vamos continuar a conviver com essa coisa teratológica que é ter uma taxa de juro de curto prazo maior do que a de longo prazo. O que nos levará mais uma vez a destruir, inexoravelmente, uma parte do setor industrial brasileiro.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br