Ao acertar todas as “zebras” da Loteria Esportiva num jogo realizado em novembro de 1977, uma delas deve ter decidido acompanhar, vida afora, o apostador Francisco Ferreira Gonçalves, 68 anos, que mora em Bauru. Depois de quase 30 anos, ele ainda “briga” na Justiça para receber o prêmio, que poderia lhe garantir alento em momentos difíceis da vida.
Viúvo, penou para criar os três filhos pequenos. “Quase tive de tirá-los da escola (particular). Deixava os três trancados no apartamento para trabalhar. Eu era viajante. Hoje eles são nota dez, mas tudo teria sido muito mais fácil (caso o prêmio tivesse sido pago)”, comenta. Na época, seria possível comprar 19 carros zero quilômetro com o valor do prêmio da Caixa Econômica Federal (CEF).
“Vou querer o dinheiro corrigido. Quero até mais para compensar tudo o que deixou de ser feito”, comenta. Gonçalves fez o jogo acompanhado por três amigos. Dois deles contribuíram com 10% do valor da aposta. Um terceiro, assim como ele, entrou com 40%. A lotérica, no entanto, não teria registrado o jogo.
“Na segunda-feira seguinte, passamos na loteria e o dono disse que o cartão não tinha concorrido. Ele disse que uma funcionária teria ficado com o dinheiro, sem fazer (a aposta). Fomos para a polícia”, lembra. No mesmo mês, protocolaram uma ação na Justiça, que atualmente tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A ação, movida em nome de Adhemar Salgado, já obteve êxito em primeira e segunda instâncias.
“É a maior espera da minha vida”, comenta o representante comercial. Um dos amigos dele morreu antes de receber o prêmio. Quando pago, o dinheiro será entregue aos filhos. Para Gonçalves, não levará muito tempo.
Mas a Caixa alegou a impossibilidade de ser ré - uma vez que fora a lotérica a responsável pelo não encaminhamento do bilhete – em recurso especial interposto no STJ. As partes continuam aguardando o julgamento, porém não é impossível que a disputa chegue ao Supremo Tribunal Federal (STF), última instância da Justiça no País.