Quando a nave russa Soyuz acionar seus motores e rumar ao espaço, na próxima quarta-feira, ela não estará apenas marcando para sempre na história do País e do mundo o fato do bauruense Marcos Pontes tornar-se o primeiro astronauta brasileiro a cumprir uma missão científica fora da Terra. Significará também a realização do sonho de um outro bauruense que, mesmo já não estando mais entre os mortais, colaborou o quanto pôde em vida para que o Brasil passasse a ser um membro ativo da chamada “Era da Corrida Espacial”.
Trata-se de Luiz de Gonzaga Bevilacqua, um carioca que adotou Bauru, onde viveu por 60 anos, como cidade para morar, trabalhar, constituir família e iniciar os contatos que o levariam a tornar-se um dos pioneiros da criação da Comissão Nacional de Atividades Espaciais, órgão que, na década de 60, começou os estudos da política e do programa de investigação espacial do Brasil propondo medidas para a realização de pesquisas no setor.
“Nada acontece por acaso. Ver um bauruense bem treinado, competente e formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), chegar ao ponto máximo de ser lançado ao espaço é algo que não posso deixar de falar que parece ser a concretização de um sonho de meu pai, que foi um dos maiores entusiastas da aviação e da astronáutica (técnica de vôo no espaço) no município. Nossa família, que adotou Bauru como cidade, vê com muito orgulho a ida de Pontes ao espaço”, ressalta Mario Bevilacqua, filho de Luiz de Gonzaga Bevilacqua.
Bevilacqua conta que o relacionamento de seu pai com a astronáutica iniciou-se após ter tornado-se um piloto formado na primeira turma do Aeroclube de Bauru. “Em 1942, veio ao Brasil uma missão científica, denominada Compton, para fazer pesquisas sigilosas da alta atmosfera que suspeita-se até terem sido análises feitas para o desenvolvimento da bomba atômica pelos Estados Unidos. A missão veio a Bauru e meu pai era diretor do Aeroclube e, em contato com os cientistas americanos, começou a se interessar e desenvolver conhecimentos sobre astronomia”, salienta. E acrescenta:
“Meu pai começou a vincular-se com a associação dos amadores de astronomia, no Rio de Janeiro, e com a Sociedade Interplanetária Brasileira. Depois houve um congresso internacional de astronáutica e convidaram o Brasil, via Itamaraty, para participar do evento, que meu pai foi escolhido para ser representante pelos conhecimentos dele em astronomia.”
Ao retornar do congresso, completa Bevilacqua, seu pai notou o crescimento do interesse de diversos países latino-americanos, principalmente a Argentina, sobre a astronáutica. “Ele sentiu necessidade do Brasil organizar algo a respeito e conseguiu marcar uma audiência com o Jânio Quadros, que era o presidente da República na época e meu pai tinha muitos contatos com o pessoal que gravitava em torno dele”, recorda.
Na audiência, Bevilacqua frisa que seu pai trataria de dois assuntos: a Santa Casa de Misericórdia e a astronáutica. “Durante o encontro, ele apresentou ao Jânio uma representação sugerindo a criação de um órgão oficial do governo brasileiro que se dedicasse aos assuntos astronáuticos, como a Argentina e outros países latino-americanos já estavam fazendo, para não ficar para trás em questões de segurança, ciência e desenvolvimento”, revela.
A tática de Bevilacqua deu resultado e, em 16 de março de 1961, Jânio Quadros fez um despacho para a Casa Militar ordenando a criação da Comissão Nacional de Atividades Espaciais e informando que Luiz de Gonzaga Bevilacqua indicaria alguns nomes para formá-la. “Meu pai escolheu integrantes da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), como o coronel Aldo Weber Vieira da Rosa, que depois foi ser professor em universidades americanas e voou até de planador em Bauru com a gente”, conta o filho de Bevilacqua. E finaliza:
“A posse dos membros da Comissão Nacional de Atividades Espaciais, da qual meu pai fez parte, ocorreu em 22 de janeiro de 1962 e ela foi criada junto ao Conselho Nacional de Pesquisas, que atualmente é o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).”