08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

EU SOU EU MESMO?


| Tempo de leitura: 3 min

“Só voltando-se para si mesmo o homem chega à sabedoria e se realiza como pessoa”.Sócrates, 469/470 a.C.

Neste dia do século 21 amanheci me perguntando: eu sou eu mesmo? Ou aquele sujeito que tatua um dragão no antebraço para imitar fulano de tal? Que inveja o jeitão simpático, espontâneo e alegre do amigo José, admirado e querido por todos por sua simplicidade, por ouvir mais do que falar e se esconder na sombra agasalhadora da modéstia? Aquela pessoa que tenta aparência de gerente querendo se destacar mais entre os colegas? No bate bola do fim de semana, julga-se o melhor craque no campo? O machão que sempre bebe um copo a mais e fuma o que quer, quando e quanto quer? Que compra livros não os lê e diz, cheio de empáfia, “tenho lá em casa”. O pretenso galã sedutor, solitário e frustrado que não tem mulher porque finge que não quer? O senhor da última palavra? Não faz isso ou aquilo preocupado com o que os outros possam comentar? Quer ser mais para os outros do que para si próprio não percebendo estar indecoroso? Que pensa que se engrandece humilhando o amigo José? Que nega a verdade acreditando nas suas mentiras? Caramba! Quem sou eu!?... De repente a ficha caiu! Onde perdi o meu “eu” na sua mais honesta autenticidade? Recuperar o caráter perdido na frivolidade! Sair deste marasmo, desta altivez, encontrar-me, redescobrir-me e me conversar. Abrir-me os olhos, a autocrítica e o bom senso. Descobrir a minha verdade! Tirar do fundo da gaveta aquela camisa amarela com bolas brancas que a minha mãe me deu em 2004, pensando em me agradar e achei horrorosa. (Ao experimentá-la, há pouco, vestiu-me bem; gostei); usar os velhos chinelos de dedos, o short desbotado; ler, meditar, falar da vida e da morte, do futebol e da política; das estrelas de Olavo Bilac, da Aquarela do Brasil de Ary Barroso; do balanço da Ivete Sangalo, de rock e das valsas de Strauss; de Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e do astronauta brasileiro, Marcos César Pontes; dos gibis da Mônica e Cebolinha e o Chaves na TV. Reconhecer valores dos outros. Dividir churrasco com amigos; fazer caminhadas e cumprimentar pessoas que não me conhecem; vivendo o meu jeito natural de ser; reconhecer-me perna de pau no bate bola do fim de semana. Nas manhãs de domingo, ficar à toa na vida, sonhando a banda do Chico passar a caminho do coreto do jardim. Fazer tudo o que desejo sem temer o que possam falar; calar-me, policiar-me, não me machucar mais na colocação do pronome “eu”. Ser eu mesmo, não o sujeito que invento ser e que nunca serei. Não sou a pessoa! Descubro-me enfraquecido pela estupidez animada pela vaidade de parecer melhor na disputa do poder; na hipocrisia das colunas sociais e dos rótulos. Lembrar sempre do amigo José! Do querido e humilde José ao meu lado direito, esquerdo, à frente, atrás, na terra, nas estrelas; o José branco, negro, amarelo, alienígena, revelando, de dentro para fora, a simplicidade e a fidelidade; tela natural da beleza pessoal; interagindo, intercalando, falando, rindo, solidarizando-se. Ser translúcido. Aprender com ele, José, sem ser ele. Formatar a minha personalidade, ajustar os seus chips; humildá-la com os talentos naturais, revestindo-a, acima de tudo, com a lealdade, virtude essencial das pessoas transparentes. Olhar nos olhos em frente ao espelho; reconhecer-me, ser a cara que o espelho revela; com cravos, acnes e rugas sem qualquer tipo de maquiagem disfarçando-a. Descer do altar que construí na minha individualidade e na minha soberba. Tirar os sapatos, pisar a velha e provida terra, contagiando-me com o seu vírus generoso. Ser terra fértil. Nascido para ser simplesmente um José. Lhano. Nem mais nem menos. Como no útero.

“O ganso da neve não precisa se lavar para ficar branco. Nem você precisa fazer nada, mas ser você mesmo”. Lao-Tzu, filósofo chinês, 604 a.C. (Munir Zalaf, escritor e poeta - R.G. 2.726.959)